EDITORIAL
A engrenagem brasileira do petróleo
A operação de longo prazo, a confiabilidade e a eficiência energética passaram a ser critérios centrais. O FPSO Maria Quitéria, com ciclo com- binado e monitoramento digital, exemplifica essa mudança na forma como os ativos são projetados e operados. A mesma lógica aparece na atuação do RINA, empresa global de origem italiana que atua nos setores de engenharia, testes, inspeção, certifi- cação e classificação naval, que vem ampliando sua atuação no país em diferentes frentes. No projeto Mero 3, a empresa atuou como Marine Warranty Surveyor, avaliando ancora- gem, lançamento de dutos e instalação subma- rina. A presença do RINA também atua antes da chegada dos equipamentos ao mar. Na spool- base da Saipem, que vem atuando nos projetos Búzios 5, Búzios 7 e Lapa, a RINA presta serviços técnicos de QA/QC, que inclui inspeção de soldagem, revestimentos, ensaios não destru- tivos, controle do recebimento dos tubos e rastreabilidade dos materiais. Enquanto a operação avança, a discussão sobre a distribuição dos royalties ganha força. Até julho, o Estado do Rio de Janeiro arrecadou mais de R$ 10 bilhões em royalties, segundo dados oficiais. A disputa envolvendo Niterói, Maricá, Rio de Janeiro, São Gonçalo, Magé e Guapimirim expõe um conflito que vai além da técnica.
Não se trata de criar novas obrigações, mas de organizar o que já existe para gerar capacidade duradoura. Essa visão dialoga com a reflexão de Jorge Luiz Mitidieri, que observa uma nova geração en- trando no setor em meio a um ambiente global instável e a uma transição energética em curso. Para ele, quem trabalha em óleo e gás precisa compreender não apenas a operação, mas o contexto geopolítico, regulatório e econômico que molda decisões de investimento. A formação de novos profissionais ocorre em um momento em que o setor exige leitura am- pla, capacidade técnica e visão de longo prazo. O conjunto dessas discussões mostra um se- tor que opera em múltiplas frentes. A logística aérea sustenta a produção; os FPSOs evoluem para modelos mais eficientes; empresas como o RINA ampliam sua atuação técnica; municí- pios disputam critérios de distribuição de royal- ties; o conteúdo local exige revisão estrutural; e a regeneração surge como nova referência para avaliar o impacto territorial da indústria. O petróleo brasileiro continua sendo produzido no mar, mas sua sustentação — logística, técni- ca, regulatória e institucional — está em terra.
produção de petróleo no Brasil é, essencialmente, uma operação offshore. Mais de 98% do petróleo e
A decisão do STJ de suspender a redistribuição evitou perdas bilionárias para municípios que já dependem dessa receita, mas o acordo firma- do em 2025 entre Maricá, Rio e os municípios reivindicantes indica que o debate sobre critérios e impactos deve continuar. A questão central permanece: quais municípios devem ser considerados beneficiários da produção offshore? Esse debate se conecta diretamente ao tema do conteúdo local, tratado no artigo de Rober- to Silva. O Brasil possui um dos maiores merca- dos offshore do mundo, domina tecnologias de águas profundas e movimentará bilhões em novos sistemas de produção. Ainda assim, importa equipamentos de maior valor agrega- do. O dilema permanece: sem escala, o pro- duto nacional não se torna competitivo; sem competitividade, não há escala. A discussão sobre regeneração, apresentada por Allan Teixeira e Cristiane Moura, amplia esse olhar. O setor já opera com agendas de segurança, eficiência, descarbonização e inovação. A pergunta que surge é outra: o que a opera- ção deixa para o território? Regeneração pro- põe integrar iniciativas dispersas — fornecedo- res, tecnologia, capacitação, sustentabilidade, descomissionamento — em uma estratégia única de legado.
cerca de 88% do gás natural extraídos no país vêm do mar. Para que essa produção funcione diariamente, existe uma logística aérea que permanece fora do radar do público, mas que é decisiva para o setor. Entre 2022 e 2024, os voos de apoio às plata- formas offshore, majoritariamente FPSOs, trans- portaram 2,58 milhões de passageiros, segun- do levantamento do Programa Macrorregional de Caracterização do Tráfego de Aeronaves (PMCTA), realizado no âmbito do licenciamento ambiental federal conduzido pelo Ibama e sob responsabilidade da Petrobras. O Rio de Janeiro concentrou 92,2% dessas operações, com o heliporto do Farol de São Tomé liderando o país. Macaé ampliou sua capacidade com a segunda pista inaugurada em 2025, enquanto Maricá passou a ocupar espaço crescente na logística do pré-sal. Essa estrutura é o que permite que plataformas, FPSOs e sondas mantenham a produção contí- nua. E é nesse ambiente que empresas como a Yinson Production consolidam sua atuação. Em entrevista à Oil & Gás Brasil, Thiago Freitas, vice-presidente de Business Development, destaca que o desempenho dos FPSOs deixou de ser medido apenas pelo primeiro óleo.
É nesse conjunto de operações, decisões e dis- putas que se define o futuro do setor no país.
4
5
REVISTA DIGITAL OIL&GAS BRASIL
REVISTA DIGITAL OIL&GAS BRASIL
Made with FlippingBook Ebook Creator