Revista digital Oil & Gas Brasil Nº73

COLUNISTA

exploratório são enormes, não apenas pelo potencial geológico, mas pela possibilidade de reposicionar o Brasil no ciclo global de descobertas. Trata se de uma região compa- rável, em termos de sistema petrolífero, às áreas que impulsionaram o boom da Guiana e do Suriname. Um sucesso ali pode rede- finir a trajetória da indústria brasileira nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, a Margem Sul — a Bacia de Pelotas — começa a ganhar relevância estratégica. Ainda estamos em uma fase inicial, com a contratação dos primeiros levantamentos sísmicos modernos. Mas a geologia indica potencial significativo, e somente após a consolidação desses dados a Petrobras e seus parceiros poderão defi- nir os próximos passos. É um processo que exige paciência, investimento e visão de longo prazo. As empresas de sísmica, por sua vez, já estão se movimentando. Investem pesa- do na aquisição de novos dados, porque sabem que sem sísmica não há exploração, e sem exploração não há futuro para a in- dústria. A cadeia produtiva inteira depende desse movimento inicial. Enquanto isso, após um amplo processo de desinvestimentos em campos maduros, vemos diversas empresas independen- tes se dedicando a aumentar o fator de recuperação dessas áreas. Esse esforço é fundamental: cada barril adicional recupe- rado prolonga a vida útil dos ativos, gera empregos, movimenta a economia local e reforça a segurança energética do país. Sigo muito honrado e grato pela oportuni- dade que Leandro Villela e a Revista Digital O&G Brasil me concedem para compartilhar reflexões sobre esse universo tão fascinan- te e tão decisivo para o desenvolvimento econômico e tecnológico do Brasil.

defensivos agrícolas...— a lista é interminável. É difícil imaginar, no curto ou médio prazo, outra matéria prima tão versátil, abundante e economicamente viável quanto o pe- tróleo. A transição energética é necessária e inevitável, mas ela não elimina o papel estratégico do óleo como insumo industrial de alto valor agregado. Petróleo não é ape- nas energia: é base da vida moderna. Por isso, nosso maior desafio está na con- tinuidade da exploração e no desenvolvi- mento de novas fronteiras. Todos os cam- pos atualmente em operação ao redor do mundo sofrem declínio natural de produ- ção. Para mantermos a capacidade produ- tiva — e, mais do que isso, para garantir segurança energética e industrial, — pre- cisamos continuamente descobrir novas áreas, perfurar novos poços e ampliar o conhecimento geológico do nosso território. Neste cenário, o Brasil, no entanto, che- ga a 2026 acumulando quase uma década de estagnação na abertura de novas fronteiras exploratórias. Uma combinação de entraves no licenciamento ambiental, volatilidade do preço do barril e incertezas regulatórias reduziu o ritmo de investimen- tos. Enquanto isso, países vizinhos avan- çaram de forma impressionante. A Guiana, por exemplo, transformou se em um dos maiores casos de sucesso exploratório do século, com descobertas gigantescas na Margem Guianense – margem setentrional da Margem Equatorial, atraindo investi- mentos bilionários e reposicionando o país no mapa global do petróleo. E Suriname e Guiana Francesa seguem agora o mesmo caminho. Nesse contexto, a Margem Equatorial brasileira surge como uma das maiores promessas do futuro energético do país. As expectativas em torno do primeiro poço

Jorge Luiz Mitidieri Jorge Luiz Mitidieri é engenheiro químico com MBA em administração, oleo e gas e Finanças pela FGV e London Business, foi diretor, VP e CEO de Ocyan e atualmente trabalha como Consultor, Conselheiro, Mentor e Professor.

Petróleo é mais que energia

á mais de 35 anos acompanho o mercado de óleo e gás no Brasil e no mundo. Nesse período, tive a oportunidade de trabalhar com empresas dos cinco continentes, convi- vendo com línguas, culturas e modelos de negócios profundamente distintos. O setor de petróleo é, por essência, global — e com a evolução da tecnologia da infor- mação e, mais recentemente, da inteligência artificial, tornou se ainda mais integrado, veloz e interdependente. Hoje, decisões tomadas em um escritório em Houston, Londres ou Cingapura reverberam quase instantaneamente em qualquer bacia pro- dutora do planeta. Recentemente, tive a honra de lecionar no MBA de O&G e Transição Energética da FGV Energia, no Rio de Janeiro, abordan- do o tema Oportunidades de Negócios no Exterior . Em sala de aula, percebi uma inquietação recorrente: afinal, até quan- do o mundo vai precisar do petróleo? Essa pergunta, embora simples, revela a ansiedade de uma geração que vive a

transição energética, mas que também re- conhece a complexidade do caminho até lá. A resposta exige clareza: o petróleo continua sendo uma matéria prima abso- lutamente insubstituível. Muito além de combustíveis e energia, ele está presen- te em praticamente tudo que nos cer- ca. No vestuário, aparece no poliéster, nylon, rayon e nas peles sintéticas. Em casa, está nos plásticos, componentes ele- trônicos, tintas, esmaltes e utensílios. Na construção civil, compõe tubos de PVC, isolantes térmicos, pisos vinílicos e imper- meabilizantes. Também tem um papel importante na área de saúde, estando presente em milhares de itens utilizados em ambientes hospita- lares e nas atividades médicas, e estamos falando de embalagens, fibras, solventes, resinas, próteses, equipamentos médicos, bem como em laboratórios, além de me- dicamentos. E ainda na cosmética, como matéria-prima petroquímica para produtos de maquiagens, batons, produtos de higie- ne pessoal. E no campo, nos fertilizantes,

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