Revista digital Oil & Gas Brasil Nº73

MATÉRIA DE CAPA

que parcialmente, os impactos das quedas de arrecadação. Rio das Ostras seguiu cami- nho oposto. Cresceu rapidamente ancorada nos repasses, mas sem se tornar um polo produtivo do setor. Quando os royalties encolheram, a cidade ficou exposta, sem colchão fiscal ou alternativa econômica capaz de sustentar o nível de gastos constru- ído nos anos de bonança. Saquarema representa outro tipo de depen- dência: fortemente influenciada pelas regras de confrontação marítima, viu sua arreca- dação explodir em curto espaço de tempo, levantando questionamentos semelhantes sobre a capacidade de planejamento e absorção responsável desses recursos. Niterói e Maricá, por sua vez, avançaram em modelos distintos. Niterói apostou em fundos, governança e planejamento urbano, enquanto Maricá transformou os royalties em política pública direta, com distribuição de renda e investimento social — modelo que gera resultados, mas também levanta debates sobre sustentabilidade no longo prazo. Nesse conjunto, Rio das Ostras ocupa um lugar incômodo, porém pedagógico. Sua história mostra que royalties não garantem desenvolvimento por si só. Sem planejamen- to técnico, visão de longo prazo e compro- misso com investimentos estruturantes, o petróleo pode gerar crescimento rápido — e crises igualmente rápidas quando o ciclo vira. É essa lição que atravessa toda a série: o petróleo paga muito, mas cobra caro quan- do é tratado como solução permanente.

Atualização do mapa dos royalties

A percepção, hoje amplamente compartilha- da, é que uma parte expressiva da renda pe- trolífera foi consumida sem gerar um legado proporcional em infraestrutura resiliente, qualificação econômica ou fundos de esta- bilização capazes de amortecer os ciclos de baixa. Nos últimos anos, o discurso oficial passou a enfatizar austeridade, ajuste fiscal e busca por novas fontes de receita.

Ainda assim, Rio das Ostras segue vulnerável às oscilações do petróleo, carregando os efeitos de um modelo que confundiu receita extraordinária com receita estrutural. Mais do que um caso isolado, a experiên- cia do município funciona como alerta: no mapa dos royalties brasileiros, o volume recebido importa menos do que a forma como ele é administrado.

A leitura conjunta das principais cidades fluminenses produtoras ou beneficiárias dos royalties evidencia trajetórias distintas diante do mesmo recurso. Macaé, mesmo tendo perdido protagonismo relativo na produção com o deslocamento do eixo para o pré-sal, preservou relevância por concentrar opera- ções, serviços, mão de obra especializada e infraestrutura ligada diretamente à indústria de óleo e gás. Isso permitiu amortecer, ainda

Foto: Divulgação

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