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desenvolvimento e o trauma pré-edípico: “Contudo presumiu-se que a fantasia onírica do Homem dos Lobos, transformou uma memória precoce pré-edípica não traumática em um novo trauma. O desenvolvimento aqui ocorre em grande parte em um mundo de fantasia, isolado da vida da criança. A realidade psíquica duradoura do sonho tornou-se mais importante do que a experiência passada real ou sua memória, a mudança do desenvolvimento em curso ou a experiência patogênica atual" (p. 1154). A interação entre trauma e fantasia inconsciente ao longo do desenvolvimento até a idade de adulto jovem foi investigada e elaborada nos estudos clínicos longitudinais de crianças que foram reanalisadas quando adolescentes e adultos jovens (Papiasvili e Blum, 2014, 2015). Em várias ocasiões, os acontecimentos traumáticos, relatados por um familiar, não foram lembrados, mas encenados na terapia lúdica com os bonecos e depois nos desenhos do final da análise da criança; e subsequentemente simbolizados em pesadelos e sonhos, e encenados na transferência aos 19-21 anos de idade. Quando o pesadelo noturno e a encenação transferencial foram analisados, a resignificação do evento e a sua historização foram possibilitadas, embora o evento em si não tenha sido lembrado. A forma complexa como Nachträglichkeit mediou eventos e experiências foi completamente exposta no trabalho clínico, ilustrando como os acontecimentos se tornaram experiências e assumiram um significado traumático, não tanto no momento em que aconteceram, mas nas memórias e na sua reconstrução após certo tempo. As referências primárias de reconstruções foram encontradas em vestígios pré-históricos deixados na ausência de qualquer representante psíquico adequado. Psiquicamente, estes vestígios não possuíam um significado; para assumirem um significado, necessitavam situar-se no contexto de uma narrativa que vinha sempre após o fato. Os achados coincidiram com a declaração de Gerhard Dahl, "Nachträglichkeit claramente implica na ação de uma força, análoga à da compulsão à repetição, que procura simbolizar o estranhamento e a confusão da experiência original - seja como uma experiência real do evento que não foi compreendida ou como uma cena difusa de processo primário - para que possa posteriormente [nachträglich], de acordo com o princípio da realidade, ser estruturada, pensada, compreendida, e talvez também superada" (Dahl, 2010, p. 740). Numa revisão abrangente da literatura transcultural, Joann K. Turo (2013) enfatizou dois vetores temporais do Nachträglichkeit Freudiano - a revisão adiada e a retroativa. Na sua visão, a ação terapêutica da psicanálise, diferente das psicoterapias, reside "no processo psicanalítico de conversão de memórias traumáticas não assimiladas, repetidas na transferência, para assimiladas através da interpretação, resultando em revisão retroativa sob nova perspectiva, nova experiência e novo significado, especialmente notável na fase de elaboração do processo" (Turo, 2013, p. 2). III. Fc. Perspectivas Intersubjetivas e Relacionais: Não-linearidade e o Inesperado As visões Intersubjetivista e Relacional destacam a não linearidade, fluidez e o caráter imprevisível do diálogo clínico e dos diálogos ao longo da história, no seu pensamento sobre Nachträglichkeit. Muitas vezes considerado como o conceito mais não- linear de Freud,
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