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Enquanto a psicologia cognitiva distingue entre memória declarativa e não declarativa, dividindo a memória declarativa em semântica, episódica e autobiográfica e a memória não declarativa em componentes procedurais e afetivos, a psicanálise precisa abordar qualquer dessas formas de memória conforme elas se referem à experiência ‘passada’ ou 'não passada’ (’unpast’). Enquanto a memória não declarativa é um bom locus para experiências 'não passadas’ (‘unpast’), é importante considerar que qualquer dessas formas de memória pode ser prisioneira do 'não passado’ (‘unpast’) (por exemplo, um esquecimento temporário de um nome ou, no outro extremo do espectro, uma memória episódica intrusiva de eventos traumáticos). A natureza ‘estabelecida’ da investigação psicanalítica implica que qualquer forma de memória pode ser convocada dentro do relacionamento transferencial e, portanto, entrar em uma dinâmica mais complexa de Nachträglichkeit do que a que pode ser observada em experimentos de laboratório padronizados. III. Feb. Nachträglichkeit e contexto histórico-social: transmissão transgeracional da agressão destrutiva Nos Estados Unidos, Maurice Apprey (1993, 2014) cunhou os termos “sonhos de tarefas voluntárias urgentes”, “latência mais-que-perfeita” e “tarefa mais-que-perfeita”, a fim de captar retornos enigmáticos e misteriosos em seu trabalho sobre transmissões transgeracionais de agressão destrutiva, tanto em indivíduos traumatizados, quanto em comunidades, que anteriormente sofreram eventos catastróficos traumáticos (Apprey, 2003). ‘Tarefas’ aqui se refere à ideia de que existe a intenção de alguém que virá para ser lembrada ou ser incorporada. Implicada no uso psicológico da palavra ‘tarefa’ há uma ideia composta de que há um ‘erro’ potencial, um ‘desvio’, um ‘engano’ e um ‘mandato’ a ser cumprido pelo sujeito para um objeto interno. Fazendo referências ao retorno a si mesmo de Claude Romano (2009); ao fantasma de Nicholas Abraham (1988), à telescopagem de gerações de Faimberg (2005); e aos traumas escolhidos e glórias escolhidas de Vamik Volkan (2013) e capturando representações mentais de memórias coletivas , Apprey (2014) construiu uma metassíntese mnêmica decupla de todas as contribuições anteriores sobre a transformação da memória de eventos catastroficamente destrutivos para um senso de história ‘resubjetivado’ e recontextualizado: 1. Algo é injetado de uma fonte anterior. 2. Aquele pro-jeto previamente injetado é hospedado em um lugar acolhedor por tempo indeterminado. 3. Esse algo agora é suspenso e sua transformação é retardada . 4. Esse algo se torna um projeto que carrega um mandato para uma tarefa a ser cumprida . 5. O mandato é acomodado como uma tarefa com uma recepção urgente voluntária . O que é urgente é o mandato ancestral injetado no ego inicial e incipiente. O que é voluntário é a ressubjetivação do mandato pelo próprio sujeito. 6. O sujeito espera um novo contexto, adequado para despertar o projeto para que ou esse, ou um projeto derivado, possa retornar ao espaço público. 7. Nesse momento, o sujeito deve ter perdido de vista quem primeiramente mandou . 8. As categorias ativo/ passivo tornam-se intercambiáveis . 9. Uma voz intermediária, que não é totalmente ativa nem inteiramente passiva fala de forma invisível e inaudível. 10.
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