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amplificação do trabalho de Freud e, em particular, procurou articular sua concepção do mundo interno em termos da teoria freudiana (1923) de estrutura da personalidade (cf. Caper 1988). O superego, por exemplo, é visto como um composto das “ várias identificações adotadas nos diversos níveis de desenvolvimento, cuja estampa ele ainda carrega” (Klein, M. (1929), Personificação no brincar das crianças. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921- 1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.234). E, no entanto, contrariamente a Freud, as pulsões são concebidas por Klein como de natureza irredutivelmente psicológica ou subjetiva e disponíveis para a experiência – isto é, inextricavelmente ligadas às emoções e ansiedades do bebê. Assim, o uso do termo “ relações de objeto” de Klein é baseado em sua asserção de que o bebê, desde o início da vida pós-natal, tem com a mãe uma relação (se bem que centrada primariamente em seu seio) imbuída de elementos fundamentais de uma relação de objeto, isto é, amor, ódio, fantasias, ansiedades e defesas. (Klein, M. (1952), As origens da transferência. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, p. 72). As pulsões são concebidas do ponto de vista da relação objetal primária. Para Klein, “ não existe urgência pulsional…que não envolva objeto, externos e internos; em outras palavras, as relações de objeto estão no centro da vida emocional” (Klein, M. (1952), As origens da transferência. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, p. 76). Objetos internos fornecem o conteúdo da fantasia [NT: phantasy no original] inconsciente para Klein, que é vista como um componente primário da própria pulsão. Esta posição é evidente sobretudo na forma como Klein via a relação entre os objetos e o corpo. Embora o corpo seja central para a fenomenologia do mundo interno, Klein continuou a enfatizar a expressão corporal das pulsões, em vez da própria tensão corporal, como fonte da energia instintiva. Isto proporcionou uma alternativa aos princípios regulatórios da teoria clássica da pulsão. O termo e conceito 'interno' pode referir-se de forma variável a 'mental', 'imaginário' ou 'interior' (Strachey 1941). Os kleinianos continuaram a debater esta questão. Karin Stephen, em uma tentativa inicial de esclarecer a natureza dos objetos internos, observa que “ a crença nesses fantásticos objetos internos têm origem nas reais experiências corporais precoces da primeira infância, ligadas com violentas, muitas vezes incontroláveis, descargas de tensão emocional” (1934: 321). Paula Heimann, ainda leal ao grupo de Klein, por sua vez sublinha a suposição básica de que as pulsões são buscadoras de objeto, do ponto de vista do corpo: “ Sob a influência da fome e dos desejos orais, o bebê de alguma forma evoca o objeto que satisfaria esses impulsos. Quando este objeto, o seio da mãe, é na realidade oferecido a ele, ele o aceita e em fantasia o incorpora” (1949: 10). Mais recentemente, Robert Hinshelwood chamou a atenção para o fato de que a experiência primitiva de objetos internos “ cria um mundo animista em que tudo [animado e inanimado] sente e tem intenções” (1989: 75; grifo nosso). A atribuição de intencionalidade à energia psíquica, tanto às pulsões de vida como às pulsões de morte, é vista da perspectiva kleiniana como aplicável desde o início da vida: “ amor e ódio, fantasias, ansiedades e defesas também operam desde o começo e encontram-se ab initio indivisivelmente ligados às relações de objeto” (Klein, M. (1952), As origens da
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