Dicionário Enciclopédico de Psicanálise da IPA

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transferência. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, p. 76). Desde o início, segundo Klein, “ o ego introjeta objetos ‘ bons ’ e ‘ maus ’ , sendo que o seio da mãe é o protótipo para ambos” (Klein, M. (1935), Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.304). Ao contrário de Freud, para quem o objeto é sempre objeto de uma ação pulsional, Klein postula a relação com o objeto como um determinante ‘ adicional ’ primário da ação humana (1952a: 51). Isto se aplica tanto ao amor quanto ao ódio, entendidos como força de relações propositais ou intencionais inerentes desde o início. No caso do apego libidinal, Klein propõe que “ sentimentos de amor e gratidão surgem direta e espontaneamente no bebê como resposta ao amor e aos cuidados da mãe” (Klein, M. (1937), Amor, Culpa e Reparação. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p. 352). Impulsos destrutivos são entendidos a partir da mesma lógica como uma manifestação de ódio intencional inato e inveja do todo-poderoso objeto bom. (Klein, M., 1959: 249). “ Já nos primeiros meses de existência, o bebê tem impulsos sádicos dirigidos , não só contra o seio da mãe, mas contra o interior do seu corpo” (Klein, M. (1935), Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.304, ênfase adicionada). As noções freudianas de “ libido” e “ agressão” são concebidas como emoções direcionais. Como tal, Klein procura integrar a teoria das pulsões e a teoria das relações de objeto; na verdade, sua explicação das pulsões como fenômenos inerentemente intencionais é uma teoria das origens e natureza do objeto. Isto levanta questões relativas à constituição da psique, com respeito ao equilíbrio dos fatores constitucionais e ambientais. O equilíbrio de fatores internos e externos – ex: o complexo de elementos biológicos e pessoais e a natureza do ambiente inicial – é expresso de forma diferente em diferentes pontos dos escritos de Klein. Klein, numa linha consistente de argumentação, postula um estado de “ conhecimento inconsciente inato da existência da mãe” (Klein, M. (1959), Nosso mundo adulto e suas raízes na infância. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, p.282); os objetos são vistos como inerentes às pulsões e, nesse sentido, relativamente autônomos em relação aos objetos externos, em particular a mãe real do bebê. O conhecimento instintivo, ou preconcepção inata, é entendido como “ a base da relação primordial do bebê com a mãe” (1959: 282). A ideia de que os primeiros objetos das pulsões são, na verdade, extensões das próprias pulsões, em vez de eventos relacionais reais, é sustentada por dois motivos. Klein pressupõe primeiro que o desejo libidinal é sempre o desejo por algo (intencionalidade das pulsões) e, em segundo lugar, que as relações de objeto são estabelecidas especificamente pelos mecanismos intrapsíquicos de introjeção-projeção. “ É por meio da projeção, pelo desvio para fora de libido e agressão, e inibindo delas objeto, que se dá a primeira relação de objeto do bebê. Esse é o processo que, a meu ver, fundamenta o investimento de objetos. Devido ao processo de introjeção, esse primeiro objeto é simultaneamente incorporado ao self ” (Klein, M. (1952), Influências mútuas no desenvolvimento de Ego e Id. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, p. 82).

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