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A natureza onipotente da fantasia inconsciente primitiva significa que o objeto externo a princípio, na posição inicial esquizo-paranóide, é experiencialmente indissociável do objeto introjetado, enquanto a projeção resulta no que parece ser uma perda real de partes do self ou do mundo interno. Um sentimento de despersonalização ou fragmentação pode resultar de excessiva identificação projetiva, onde partes do self foram colocadas em objetos externos. O conceito de “ objeto interno” é usado desta forma para se referir à crença primitiva em um objeto fisicamente presente (Money-Kyrle 1968), ou a experiência de objetos como concretamente reais. E às pessoas reais, incluindo os próprios pais, é atribuído um papel ou uma identidade contra o pano de fundo deste mundo interno concretamente imaginado, onde as relações objetais são formadas por imagos a priori universais. Mais notavelmente, o superego da criança, segundo Klein, “ não corresponde aos seus pais verdadeiros, sendo criado a partir das imagens ou imagos deles que a criança jogou para dentro de si mesma” (Klein, M. (1933), O desenvolvimento inicial da consciência na criança. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p 287). Klein chegou a uma conclusão desde cedo sobre as origens intrapsíquicas dos objetos internos e introjetados; ao relatar sua análise de Rita em 1923, ela escreve que a proibição por conta de um objeto interno persecutório não emanou “ da mãe real , mas de uma mãe introjetada” (Klein, M. (1926), Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p 157). No entanto, Klein não evita a referência ao mundo real, externo, mas vê a projeção- introjeção como um processo contínuo de interação ou “ interjogo” de fatores ambientais e intrapsíquicos (1936: 292): “ Desde a sua criação, a psicanálise sempre deu muita importância às experiências iniciais da criança, mas creio que só ao sabermos mais sobre a natureza e o conteúdo de suas ansiedades arcaicas, e a interação constante entre suas experiências reais e sua vida de fantasia, poderemos compreender totalmente por que o fator externo é tão importante." (Klein, M. (1935), Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco- depressivos. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.326). Klein afirma que “ desde o início do desenvolvimento psíquico há uma correlação constante entre os objetos reais e aqueles que estão instalados dentro do ego” (Klein, M. (1935), Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.308). Imagos de objetos são vistos, desta forma, como “ duplos” de situações reais (Klein, m. (1940) O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.389). A noção de “ duplos” pressupõe uma teoria da mentalização psíquica (objetos internos, representações e símbolos) baseada na ideia de correspondência (e não de verossimilhança), visão que se mantém nos fundamentos de que as imagos internas são “ uma imagem distorcida de forma fantástica dos objetos reais em que estão baseadas” Klein, M. (1935), Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921-1945, Rio
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