Dicionário Enciclopédico de Psicanálise da IPA

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de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.304). Mais do que um mecanismo de defesa, o processo de projeção-introjeção é visto como um modo normal de encontro, uma forma de se relacionar com o mundo exterior em geral. Neste acerto de contas, a imago do objeto interno é formada em torno de um núcleo de percepção real da experiência; o mundo interno é povoado por objetos derivados do ambiente real e da história interpessoal do bebê. À medida que os ciclos de projeção e introjeção continuam, em determinado ponto (que inicia, segundo Klein, aos 4-6 meses) o bebê percebe que o objeto odiado, que é expulso e violentamente atacado na fantasia, é o mesmo objeto amado, que nutre e que o bebê deseja amorosamente absorver. O bebê tem, portanto, uma consciência crescente de seus ataques ao objeto amado. Se esta confluência de figuras amadas e odiadas puder ser suportada, em vez da ansiedade de sobrevivência persecutória da chamada “ posição esquizo-paranóide” primitiva, onde o reinado é do “ objeto parcial” fantástico, a ansiedade começa a centrar-se no bem-estar e na sobrevivência do outro percebido como um “objeto total” mais real e complexo. Gradualmente, a perseguição dá origem a uma culpa cheia de remorso e tristeza pungente, ligada ao aprofundamento do amor. Com saudades do que foi perdido ou danificado pelo ódio surge um desejo de reparar. As capacidades do ego aumentam e o mundo fica mais rico e realisticamente percebido. O controle onipotente sobre o objeto, agora sentido como mais real e separado, diminui. Estes são os primórdios da posição depressiva. O amadurecimento é assim intimamente ligado à perda e ao luto; como aponta Roger Money-Kyrle (1955), a teoria de Klein tem uma moralidade natural embutida, baseada no amor e na culpa, que é descoberta durante o curso do desenvolvimento em vez de ensinada. O reconhecimento do outro como separado de si abrange os relacionamentos do outro, o que significa que a consciência da situação edípica acompanha inevitavelmente a posição depressiva. Ronald Britton (1989, 1992) prossegue mostrando com mais detalhes como a posição depressiva e o complexo de Édipo não são apenas concomitantes em termos de desenvolvimento, mas que a elaboração de um implica necessariamente a elaboração do outro. Na posição esquizo-paranóide, Klein (1932, 1952a) postula a fantasia de uma “ figura parental combinada” temível e persecutória: o corpo materno contendo o pênis do pai e bebês rivais. Esta versão primitiva de um casal, fantasiada como em um coito contínuo, exibe características orais, uretrais e anais sádicas devido a projeções da sexualidade infantil e do sadismo. Na posição depressiva, porém, há a consciência de um verdadeiro terceiro objeto, interno e externo, que embora dê origem a sentimentos de ciúme e inveja, também acrescenta estabilidade à situação interna. “ A capacidade do bebê para usufruir ao mesmo tempo a relação com ambos os pais, que é um aspecto importante em sua vida mental e está em conflito com seus desejos de separá-los, estimulados por ciúme e ansiedade, depende de que ele sinta que eles são indivíduos separados. Essa relação mais integrada com os pais (que é diferente da necessidade compulsiva de manter os pais separados um do outro e impedir sua relação sexual) implica uma maior compreensão da relação de um com o outro e é uma pré- condição para a esperança do bebê de que ele possa aproximá-los e uni-los de um modo feliz.” (Klein, M. (1952), Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do

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