Dicionário Enciclopédico de Psicanálise da IPA

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bons pela agressão. Embora Klein tenha sido mais identificada com a tendência de observar e abordar a agressão (ponto 6 acima) por muitas razões — uma das quais foi ampliar a visão de Abraham que tinha sido um tanto negligenciada até então —, sua visão teórica também abordou as inclinações libidinais inatas e focou em fatores que contribuem para inibir a introjeção de e sustentação do objeto interno bom e aspectos do self. Suas preocupações teóricas concentraram-se nos primeiros e não resolvidos conflitos edípicos, dominados pelo mecanismo de cisão: “ [...] um dos fenômenos inesperados com o qual me deparei foi um superego muito primitivo e selvagem. Descobri também que crianças pequenas introjetam em fantasia seus pais…, e cheguei a essa conclusão através da observação do caráter aterrorizante de alguns de seus objetos internalizados. … fazem surgir conflito e ansiedade dentro do ego no início da infância; mas, sob a pressão da ansiedade aguda, … eles são excindidos de uma maneira diferente daquela pelo qual o superego é formado, sendo relegados às camadas mais profundas do inconsciente. ” (Klein (1958), Sobre o desenvolvimento do funcionamento mental. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos, 1946-1963, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, p. 275). Klein sublinhou a necessidade da cisão desde o início para passar de ansiedades difusas para esquizo-paranóides (persecutórias), no interesse da preservação do eu. Ela sublinhou como essas ansiedades iniciais colorem a percepção do objeto, antes que essas ansiedades possam ser integradas no que ela chama de ansiedades depressivas: aquelas que se agrupam em torno da preocupação com o objeto. Este foco permite uma visão mais detalhada de como o objeto ‘ é conhecido ’ através do amor e ódio em constante interação. O objetivo desta compreensão capacita o ego, enfraquecido por impulsos destrutivos, a recuperar a bondade e, portanto, a força e a esperança no objeto. Embora observando o papel nem sempre aparente das primeiras influências ambientais no trabalho de Klein, Mitrani (2007) cita seu artigo "A Importância da Formação de Símbolos no Desenvolvimento do Ego”. Aqui, Klein (1930) apresentou resultados da análise de um menino autista de quatro anos de idade, a quem ela chamou de Dick, e introduziu o conceito de "desenvolvimento prematuro do ego” (Klein, M. (1930, A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do Ego. In: Amor Culpa e Reparação e outros trabalhos, 1921- 1945, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1996, p.259) para resumir o dilema de Dick. Ela descreveu a precocidade desta criança como uma "empatia prematura" (p. 259) e uma "identificação prematura e exagerada" (p. 255) com a mãe. Ela propôs que Dick sofreu com o resultado de um início muito precoce da posição depressiva. Em outras palavras, na transferência, Klein observou e inferiu a preocupação prematura, quando bebê, com questões relacionadas à sobrevivência de sua mãe . Existem inúmeras referências na obra de Klein sobre a projeção do bebê de aspectos libidinais de seu self na mãe para dar corpo ao que está faltando nela, para repará-la (isto é, a posição depressiva prematura e não tão prematura), e também sua ênfase na necessidade dos objetos bons da criança residirem no núcleo do ego.

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