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redefinido em termos de um investimento libidinal no autoerotismo, precisamente ali, onde não foi suficientemente fornecido à criança, ou foi-lhe dado “ muito pouco”, para começar. 3. A distinção entre tipos de regressão “ benigna” e “ maligna” (1968: 146) pode ser vista em termos de um “ modelo misto” claramente definido. A primeira é vista como manifesta na relação terapêutica baseada em necessidades relacionais primárias; a última, com base no prazer instintivo infantil. Assim, Balint tratou os aspectos terapêuticos da regressão no contexto de sua psicopatologia revisada das relações de objeto (ver REGRESSÃO). O modelo freudiano clássico – baseado na interpretação da resistência visando o insight – pressupõe que os pacientes são capazes de internalizar ou ‘ absorver ’ o que está disponível na relação analítica; essas interpretações são experimentadas como interpretações e não como outra coisa; e que o ego está adequado à tarefa de elaboração. O modelo revisado é necessário no caso de pacientes severamente narcisistas, borderline e psicóticos – isto é, onde a centralidade do complexo de Édipo não pode ser assumida; mas também, onde a interpretação imediata dos estados primitivos pré-edípicos corre o risco de gerar uma reação terapêutica negativa ou então provocar uma postura submissa no paciente. Balint faz uma contribuição importante nesse sentido, na tradição de Ferenczi e da escola de Budapeste, para a nossa compreensão da relação terapêutica no caso de pacientes regressivos. A visão relacional da natureza humana é combinada aqui com uma visão da motivação humana baseada no impulso e direcionada para o prazer, uma combinação que Balint considerou teórica e clinicamente irredutível. III. E. Winnicott: Processos Emocionais Primitivos e Relações Interpessoais Donald Winnicott apresentou sua contribuição à psicanálise como essencialmente parte da tradição Freud-Klein; ao mesmo tempo que propôs uma teoria radicalmente nova de relações de objeto. Isto continua a ser uma questão de debate entre os seus leitores, alguns dos quais insistem nas fontes e fundamentos freudianos nos avanços teóricos de Winnicott (Green 1999: 199 200; Abram 2013: 1), enquanto outros não são menos inflexíveis em colocá-lo em completa oposição à teoria clássica (Rycroft 1995: 197; Fulgencio 2007; Loparic 2010). 1. Winnicott forneceu à teoria das relações de objeto um modelo de desenvolvimento normal no qual “ continuidade do ser é saúde” (1988: 127). Este é um pressuposto básico da psicanálise para Winnicott ((1954) Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão no contexto analítico. In: Da pediatria à psicanálise, 2a. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2025. p. 482), a ideia de que “ a saúde implica a continuidade desse progresso evolutivo da psique e de que a saúde significa maturidade do desenvolvimento emocional adequado à idade do indivíduo”. Winnicott descreve, assim, uma série de movimentos ontológicos relacionados às muitas conquistas do desenvolvimento: (i) “ de um relacionamento com um objeto subjetivamente concebido para uma relação com um objeto objetivamente percebido” (Winnicott, D. (1960). Teoria do relacionamento paterno-infantil. In: O ambiente e os processos de maturação. 3a. edição, Porto Alegre, Artes Médicas, p. 45); (ii) da dependência absoluta através da dependência relativa em direção à independência, implicando um ambiente internalizado
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