Dicionário Enciclopédico de Psicanálise da IPA

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Por sua vez, Raul Hartke (2005) articulou o modelo misto da teoria das relações de objeto e intersubjetividade psicanalítica, fundamentada nas contribuições de Bion e dos Baranger com implicações para o trabalho analítico com pacientes traumatizados. Seguindo Bion, para Hartke a função do objeto não é apenas satisfazer ou frustrar as pulsões do sujeito, mas influenciar a gênese e o desenvolvimento da capacidade de pensar na criança, ou, ao contrário, atrapalhar, inibir ou orientar a criança de forma errônea. Ele observa que, desde uma perspectiva Bioniana, a noção freudiana de barreira de estímulo (Reizschutz), que se refere à proteção de estímulos potencialmente esmagadores no nível das pulsões, especialmente relevantes para indivíduos traumatizados, corresponderia à de um objeto interno continente, que é o resultado da introjeção de um objeto externo continente.

VII. CONCLUSÃO

As teorias e perspectivas das relações objetais têm contribuído imensamente tanto para a teoria psicanalítica quanto para a prática clínica. O impacto se estende por diversas orientações psicanalíticas e por todos os continentes. O interesse geral e apreciação da rica dinâmica das primeiras experiências da vida pré-verbal, de estados e defesas primitivos e arcaicos, o crescente reconhecimento do conceito contemporâneo de um processo analítico de duas pessoas, da intersubjetividade no setting analítico, da importância dos aspectos não interpretativos do funcionamento do analista e uma compreensão modificada da contratransferência são apenas alguns exemplos dentre muitos desse impactos. As tendências contemporâneas da psicanálise das relações de objeto europeia, clínicas e teóricas, podem ser vistas – ou seja, contra o pano de fundo histórico da teoria britânica das relações de objeto – em termos de duas linhas principais de desenvolvimento: o desenvolvimento kleiniano contemporâneo e contribuições mais recentes formam a tradição Independente dentro da escola britânica, assim como mais longe na Europa. As tendências contemporâneas do pensamento kleiniano permanecem firmemente baseadas (i) no conceito de"objetos internos inconscientes", (ii) os mecanismos centrais de projeção-introjeção, e (iii) a teoria atualizada das pulsões como os principais determinantes das motivações em conjunto com "objetos internos". A crescente ênfase do pensamento pós- kleiniano sobre oscilação ao longo da vida entre as posições "esquizoparanóide" e "depressiva" continua a produzir novos achados clínicos. Os desenvolvimentos vão desde novos insights sobre aspectos da inveja constitucional, tipos de organização patológica e formas primitivas e psicóticas do complexo de Édipo, até desenvolvimentos contínuos na técnica kleiniana - incluindo, a dinâmica da mudança psíquica, elaboração na contratransferência, e interpretações 'centradas no paciente' e 'centradas no analista'. Toda a gama do desenvolvimento kleiniano contemporâneo na teoria e na prática permanece sustentada pelas contribuições da análise de crianças e da psicoterapia de crianças, particularmente com estruturas não neuróticas. Os

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