GRANDE CONSUMO
Quando um sector cresce rapidamente, a pergunta inevitável deixa de ser quanto se produz, mas quanto valor se consegue gerar com o que se produz. Produzir mais foi o primeiro capítulo. Produzir melhor – e vender melhor – é o capítulo que agora começa a escrever-se
ticularmente visível, combinando escala industrial com investimento em sustentabilidade e inovação. “Trabalhamos com um modelo de agricultura profunda- mente assente em dados, integrando sondas de humidade, sensores de atividade das plantas, estações meteorológicas e imagens diárias de satélite” , afiança. A digitalização estende-se também ao controlo de pragas e à gestão da rega. “Toda esta informação é cen - tralizada num sistema próprio de gestão da rega, desen - volvido há mais de uma década com a Portugal Telecom, que nos permite controlar remotamente as plantações” . Mais recentemente, a inteligência artificial come - çou também a desempenhar um papel crescente na análise desses dados, “gerando recomendações técnicas quase imediatas.” Sustentabilidade: o novo critério competitivo Embora com posicionamentos distintos, os casos do Esporão e da Oliveira da Serra ilustram duas di- mensões complementares da evolução do azeite português. Por um lado, a valorização gastronómica e territorial do produto. Por outro, a modernização tecnológica e industrial da produção. Ambas são es- senciais para o futuro do sector. Porque, no fundo, o novo ciclo do azeite português não se define ape - nas pelo volume produzido, mas pela capacidade de transformar esse volume em valor. Até porque, num contexto de alterações climáti- cas e de escassez de recursos hídricos, a sustentabi- lidade tornou-se uma das grandes prioridades e um verdadeiro diferencial competitivo. “A regeneração dos solos, a biodiversidade e as práticas que preservam o ecossistema serão cada vez mais fatores de distinção, tanto no mercado nacional como internacional” , nota o Espo- rão. E, sublinha a mesma fonte, “Portugal tem condi- ções para se posicionar como uma referência neste campo.” No Esporão, a sustentabilidade é “um compromis- so estrutural” . A produção em modo biológico nas ex- plorações, as práticas agrícolas regenerativas, o con- trolo rigoroso da extração, para preservar aromas e estabilidade, a monitorização ambiental, a manu- tenção de parcerias alinhadas com os seus valores e as embalagens e materiais mais responsáveis são reflexos desse compromisso. De igual modo, também a Oliveira da Serra tem investido em várias iniciativas neste domínio. Em termos de produção, no olival, aplica práticas como a rega inteligente e gota-a-gota, em que garante que cada oliveira recebe exatamente a quantidade de água que necessita, otimizando o uso deste recurso. Além disso, a preservação da biodiversidade e dos solos e a utilização de energia verde são também uma preocupação. “As nossas parcerias são também um símbolo deste compromisso” , acrescenta, ainda, a Oliveira da Serra, dando como exemplo a desenvolvida recentemente com a EcoX e materializada num creme de limpeza onde se valorizou o caroço de azeitona. “Esta ação permitiu-nos dar uma nova utilização a este subproduto
Entre gigantes mediterrânicos
Para compreender verdadeiramente o posi- cionamento do azeite português, é inevitável olhar para o contexto global. Mais de 90% da produção mundial concentra-se na região do Mediterrâneo, com destaque para Espanha, Itália, Grécia, Turquia e Tunísia. Dentro deste universo, a União Europeia continua a domi- nar a produção global. Espanha é, de longe, o maior produtor mun- dial. Em campanhas favoráveis, pode produ- zir mais de 1,5 milhões de toneladas de azeite, representando frequentemente cerca de me- tade da produção global. Itália, por sua vez, possui uma produção menor, mas construiu, ao longo de décadas, uma reputação inter- nacional extremamente forte, baseada na valorização da origem, na gastronomia e na imagem premium dos seus produtos. Grécia ocupa igualmente um lugar relevante no pa- norama internacional, sendo um dos países com maior consumo per capita de azeite. Portugal surge neste contexto como um pro- dutor de dimensão intermédia, mas com uma trajetória de crescimento notável. Em menos de duas décadas, o país passou de relativa- mente marginal para um dos principais pro- dutores europeus, graças à modernização da olivicultura e ao investimento em tecnologia agrícola. Este crescimento trouxe, no entan- to, um desafio estratégico: competir com paí- ses que dominam o mercado há décadas. A resposta portuguesa passa cada vez mais por uma estratégia clara – apostar na qualidade, na diferenciação e na construção de marca.
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