Grande Consumo N.º 97

entrevista

N.97

“Nascemos para sermos grandes, lutaremos todos os dias para sermos grandes” . Es- tas suas palavras espelham um sonho, um desígnio, uma promessa ou uma ambição? É um pouco isso tudo. Quando começámos este projeto, poderíamos ter seguido dois caminhos. Um era o de um negócio mais pequeno, com menos produção e muito focado no luxo do vinho, se assim podemos dizer. Nós acreditamos que o sector do vinho em Portugal pode ter estas empresas, mas não era o nosso foco. Porquê? Nascemos ligados à pequena produção, na sub-região da Granja Amareleja, com muitos pequenos produtores associados a uma cooperativa que estava em dificuldades, estava falida tecnicamente. E fomos o porto de abrigo, a solução para que não fechasse, pelo que tivemos de definir o que que - ríamos ser. E fizemo-lo muito bem. Acreditamos claramente que Portugal tem capacidade, tem qualidade e tem quantidade para criar grandes empresas no sector do vinho. E queremos ser uma delas. Estes anos de trabalho têm sido nesse sentido. E vamos continuar neste caminho. Porque, em cinco anos, que- remos estar no top 3 dos produtores de vinho em Portugal. Diz que Portugal tem capacidade e qualidade para ser grande. Se tem tudo isso, o que está a falhar? Está-nos a falhar, primeiro, o nosso sentimento de ambição. Portugal tem ver- gonha de dizer que quer ter empresas grandes. E os empresários têm vergonha de dizer que querem ser grandes. Julgam que isso é arrogância, mas não tem nada a ver: eu nasci aqui, continuo a ser uma pessoa extremamente humilde em termos de relação e de forma de estar na vida, mas dizer que quero ser gran- de, em termos empresariais, não tem nada a ver com humildade, tem a ver com objetivos e com valores. Em Portugal, temos uma classe política com muita dificuldade em dizer que apoia os grandes grupos económicos. Não é bem visto termos empresas que são uma referência, os acionistas e as famílias que estão por detrás delas não são bem vistos, o que tem afetado muito o nosso crescimento e o nosso posi- cionamento. No sector vitivinícola é o mesmo: considera-se que é mais fácil e mais positivo ser descendente da nobreza ligada à terra do que assumir que se quer ser uma empresa vitivinícola com muito sucesso. Há um preconceito de país e de mentalidade. Mas nós não temos esse pro- blema. Não temos problemas em dizer que queremos ser essa grande empresa. Qual é a estratégia para concretizar essa ambição? É trabalharmos em parceria, acreditando que só trabalhando com outros em- presários, cada um nas suas áreas, podemos ser todos maiores. É isso que nos tem feito crescer. Ou seja, se tivéssemos aquela ideologia de crescer passo a passo, de ter vinhas em todas as regiões, de trabalharmos sozinhos, de fazer- mos vinhos que comercializamos nós próprios, ainda hoje seríamos uma pe- quena empresa no Alentejo. Foi em 2007 que Manuel Bio, gestor e empresário, tomou as rédeas da Adega da Granja Amareleja, no seu Alentejo. E, pode dizer-se, tomou o gosto ao negócio dos vinhos, porque não parou e essa foi apenas a primeira semente do Gru- po Abegoaria, de que hoje é CEO e para o qual tem uma visão muito própria, poucas vezes assumida por outros produtores vitivinícolas. E o que assume é que é na grande distribuição que o negócio se faz, com vinhos desenhados à medida dos clientes, em que são as vendas a encomendar os perfis que a eno - logia concretiza. Com a exportação à beira de dividir a faturação em partes iguais com o mercado nacional, afiança que é por aí o caminho. Numa conver - sa desassombrada, garante que os vinhos portugueses são competitivos em qualquer mercado, desde que haja a visão de comprar espaço nos lineares do retalho, tal como antes se subsidiaram companhias aéreas para trazer turis- tas. Não é sexy , mas é eficaz. E, a propósito de rotas, tem a da empresa traçada a tinta permanente: estar no top 3 dos produtores de vinho em Portugal.

Grande Consumo

Manuel Bio

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