Grande Consumo N.º 97

bebidas

N.97

Quem conhece as praias da costa vicentina sabe como pode ser íngreme a descida até ao areal. E sabe também como o sol surge, tantas vezes, envergonha- do, escondendo-se atrás de uma neblina que teima em não se dissipar. É essa a beleza de um litoral de natureza grandemente intocada. E é precisamente essa beleza de contrastes que a Vicentino Wines en- garrafa desde 2014. Primeiro, o território. Pedro Cavaleiro, diretor da empresa, é o porta-voz dessa relevância. “Queremos, acima de tudo, que os vinhos que fazemos sejam uma de- monstração da especificidade do Parque Natural do Su - doeste Alentejano e da costa vicentina” , afirma, convicto de que o que apaixona o cliente é a capacidade do vinho de contar uma história e de explicar a sua ori- gem sem transformar o contrarrótulo numa enciclo- pédia. Acredita, pois, que a origem dos vinhos que se produzem na Herdade do Brejo Redondo, em São Teotónio, se lê em cada copo. Há muito que Pedro Cavaleiro valoriza esta lei- tura: afinal, trabalhou em regiões igualmente asso - berbantes como a Ilha do Pico e Colares. “Estamos lá e sentimos a região acima de tudo” , resume. E, ali, na costa vicentina, sente o mesmo, sente que “seria mui- to difícil o homem alterar a dinâmica do local” . O que o homem pode fazer – e fez – foi escolher as vinhas, de modo a ter uma diversidade de castas que se interli- guem bem com o território e que consigam expressar o que é estarem implantadas nesta costa. São 60 hectares de vinha, plantados a cerca de dois quilómetros do mar. Sendo uma zona de arribas relativamente altas, nos invernos mais rigorosos, os ventos arrastam consigo como que uma chuva qua- se permanente. Do ponto de vista geológico, a areia sedimentar é uma constante nas vinhas, depositan- do-se uma camada de 80 centímetros a um metro de rocha deteriorada, com argila no fundo – assim se ex- plicando a cor mais escura dos vinhos. A estas particularidades do ecossistema, Pedro Cavaleiro acrescenta um “fator muito curioso” : é que, não obstante a propriedade se encontrar numa zona relativamente baixa, é enquadrada pela Serra de Monchique, à retaguarda, gerando-se uma espécie de vale. Ora, no verão, os ventos frescos que chegam do mar entram nesta terra quente – afinal, está-se no Alentejo – e encontram barreiras; o resultado é uma neblina matinal que, sendo porventura desagradável para os veraneantes, é bem acolhida na Vicentino. E porquê? Porque o aumento da temperatura é gra- dual, ao longo do dia, não havendo um impacto súbi- to do calor, como acontece no Alentejo mais interior. “É esse conjunto de fatores que torna realmente a Vicentino um lugar único, mesmo único. De tal maneira único que, em parceria com uma universidade, estudámos o solo e chegámos à conclusão de que esta zona é completamente diferente das que existem à volta. Demos-lhe até o nome de triângulo verde. E sabemos que está delimitada, há cerca de seis mil anos, por menires que existem nas três pontas do triângulo” , conta. Conta, ainda, que os autores do

estudo identificaram uma “costa irmã” na América do Norte: irmã, porque tem exatamente o mesmo recor- te, a mesma formação rochosa. “Tivemos sorte” , comenta. “Tivemos a sorte de o Ole Martin [o fundador do projeto] ter olhado para este ter- ritório e acreditado na sua diferenciação numa altura em que esta zona era um vazio” , sublinha, reforçando que a Vicentino é a soma desta visão com “uma jogada de sorte” , isto é, a plantação das castas certas. O diretor da Vicentino remonta, assim, a finais da década de 1980, quando o norueguês Ole Martin Siem veio para Portugal e se apaixonou pelo sudoeste alentejano. Começou por criar um negócio agrícola, a Frupor, que é a empresa mãe da Vicentino, mas para cujas culturas não se adequavam os terrenos que hoje são de vinha. Foi preciso esperar até 2007 para assistir às primeiras plantações, uma experiên- cia de poucos hectares junto à casa do próprio Ole Martin, desafiado por Hans Jorgensen, o proprietário da Cortes de Cima. Não havia por que não lhe dar ou- vidos: afinal, eram amigos, dois estrangeiros na re - gião e ambos apaixonados por vinho. Alentejano, mas não tradicional Sauvignon Blanc foi a casta escolhida para essa pri- meira vinha. Uma escolha que, mais uma vez, reflete a ligação entre os dois amigos: por um lado, a pro- ximidade de Ole Martin aos vinhos franceses e, por outro, a experiência de Hans Jorgensen na plantação desta casta junto ao mar. O resultado foi, em 2014, o primeiro vinho com a chancela Vicentino. Seguiu-se um Pinot Noir, um ano depois, a confirmar a prefe - rência por castas internacionais, não obstante decor- ressem alguns testes com castas nacionais. Pouco mais de uma década se desenrolou desde o primeiro Sauvignon Blanc e o primeiro Pinot Noir. Tempo de balanço para Pedro Cavaleiro, tempo para dizer que os últimos dez anos permitiram compreender melhor a natureza, aceitá-la melhor e, em consequência, saber melhor o que fazer com ela na adega

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