Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

bebidas O renascimento do vinho de talha texto ALEXANDRA COSTA fotografia D.R.

O que impulsiona esta redescoberta? A resposta é multifacetada, mas converge num ponto central: a busca por autenticidade. O consumidor moderno, particularmente o mais informado e curioso, está cansado da previsibilidade de vinhos tecnologica- mente perfeitos, mas, por vezes, desprovidos de alma. Anseia por produtos com uma narrativa ge- nuína, que contem uma história e reflitam um lugar. Como descreve a Adega das Flores, “o consumidor procura vinhos diferentes, que surpreendam, e, acima de tudo, procura a história por detrás da produção, do produ - to, do produtor. Esta, sim, confere uma identidade, que é o grande fator de diferenciação.” O vinho de talha encapsula esta procura na per- feição. Cada garrafa não é apenas o resultado de uma colheita, mas o culminar de séculos de saber-fazer, um produto “único, autêntico e irrepetível” . Teresa Caeiro, rosto do projeto Gerações da Talha, reforça esta ideia, comparando-o à valorização da “comida da avó” , um regresso ao conforto e à verdade das ori- gens. “Este produto tem um legado único, dando a opor - tunidade ao consumidor de provar vinhos semelhantes aos que se faziam há dois mil anos” , explica. Este movimento não surgiu do vácuo. Foi alimen- tado, desde a viragem do milénio, por uma série de eventos locais que mantiveram a chama da tradição acesa. Ricardo Santos, enólogo da XXVI Talhas, re- corda a importância de iniciativas como a Vitifra- des, em Vila de Frades, o Provando o Tareco, em Vila Alva, a Vin&Cultura, em Ervidel, ou a Feira da

Numa paisagem vitivinícola global cada vez mais homogénea, onde a tecnologia dita as regras e os sabores se estandardizam, uma revolução silen - ciosa e ancestral ganha força no coração do Alen - tejo. O vinho de talha, um legado com mais de dois milénios, introduzido na Península Ibérica pelas legiões romanas, está a viver um renascimento notável. Este método de vinificação, que consiste em fermentar uvas em grandes potes de barro, es- teve à beira da extinção, mas hoje ressurge como um estandarte da autenticidade, atraindo um novo perfil de consumidor que procura mais do que um simples vinho: procura uma história, uma identi - dade e uma ligação profunda à terra. Este regresso às origens, contudo, não é uma jornada romântica isenta de percalços, mas um caminho complexo, pavimentado pela paixão dos produtores, pelos de- safios da tradição e pela crescente curiosidade do mercado.

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