GRANDE CONSUMO
A aquisição de talhas antigas tornou-se uma caça ao tesouro e os preços dispararam. A Adega das Flores relata propostas de quatro mil euros por uma única talha de 1.200 litros, valores que considera absurdos e que dificultam a entrada de novos projetos
A alquimia do barro: um processo intocado pelo tempo
Fazer vinho de talha é um exercício de paciência e respeito pela matéria-prima. O processo começa na vinha, com a escolha de castas autóctones que se adaptam bem a esta técnica, como Antão Vaz, Perrum ou Roupeiro, nos brancos, e Moreto, Tinta Grossa ou Trincadeira, nos tintos. As uvas são vin- dimadas manualmente e transportadas para a ade- ga, onde a “magia” acontece. Tradicionalmente, as uvas (com engaço) são pisadas a pé em lagares e, depois, transferidas para as talhas. A fermentação arranca espontaneamente, apenas com as leveduras indígenas presentes nas cascas das uvas e na própria adega. Durante este período, forma-se no topo uma massa sólida de películas e engaços, a “manta”, que é periodicamente mergulhada no mosto para uma extração suave de cor e taninos. O controlo da temperatura é um dos aspetos mais delicados, sendo gerido pela inércia térmica do bar- ro e pela temperatura ambiente da adega. Após a fermentação, que dura algumas semanas, as massas sólidas descem lentamente para o fundo da talha, criando um filtro natural. O vinho permanece em contacto com estas borras finas, num processo de maturação que pode durar meses. A abertura da talha é um momento cerimonial. Abre-se o “ladrão”, um pequeno orifício na base, e o primeiro vinho a sair, mais turvo e denso, é conheci- do como “pé de pote”. O vinho que se segue, já límpi- do e brilhante, está pronto a ser consumido, embora muitos produtores optem por um estágio adicional antes do engarrafamento. É um vinho sem maqui- lhagem, sem a influência da madeira nova, onde a expressão da uva e do terroir é máxima.
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