Grande Consumo N.º 97

bebidas

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climáticas, a vindima tem de ser mais cedo e, da forma tradicional, não é fácil o controlo de temperaturas, corren - do o risco de paragens de fermentação ou fermentações a ocorrerem de forma indesejada.” A Adega das Flores destaca outro aspeto funda- mental: o investimento. “Não só financeiro, e para isso temos de ter noção que somos pequenos produtores com o mesmo tipo de obrigações e de necessidades que uma gran - de empresa, mas também em termos de horas de trabalho e dedicação a um processo que é, todo ele, muito artesa - nal” . Esta realidade é particularmente desafiante quando se trata de promoção e internacionalização, áreas onde os recursos limitados dificultam o acesso a programas de apoio ou a mercados mais distantes. Entre a arte do oleiro e o coração do vinho: a talha No centro de todo este universo está, claro, a talha. Este pote de barro, aparentemente simples, é um recipiente complexo que molda ativamente o carác- ter do vinho. A sua porosidade permite uma micro oxigenação lenta e constante, que suaviza os taninos e complexifica os aromas, de uma forma que o aço inoxidável ou o cimento não conseguem replicar. A sua forma, mais larga no topo e afunilada na base, promove uma circulação natural do mosto du- rante a fermentação. A espessura das paredes, que pode variar entre cinco e dez centímetros nas talhas antigas, garante a inércia térmica que protege o vi- nho de oscilações bruscas de temperatura. A escassez de talhas e dos artesãos que as produ- zem – os oleiros – é, talvez, o maior gargalo para a ex- pansão da categoria. “Há pouquíssimos artesãos capa - zes de produzir talhas grandes, entre mil e dois mil litros, com qualidade e segurança” , lamenta Pedro Ribeiro. A aquisição de talhas antigas tornou-se uma caça ao tesouro e os preços dispararam. A Adega das Flores relata propostas de quatro mil euros por uma única talha de 1.200 litros, valores que considera absurdos e que dificultam a entrada de novos projetos. “Estas situações só vêm dificultar a entrada de novos produtores” , desabafam. O enólogo da XXVI Talhas, que tem per- corrido o país em busca destes artefactos, partilha uma história ilustrativa: “Para retirar um pequeno pote de 300 litros que estava numa casa em Vila Alva, tivemos de partir uma parte da parede para se ter acesso.” Cerca de dezena e meia de mercados internacionais já se renderam a este néctar, com destaque para os Estados Unidos, Japão, Brasil e países do norte da Europa

Luís Sequeira, presidente da CVRA, nota um crescimento de 34% na comercialização de vinho de talha

Desafios da tradição: entre a técnica e o investimento

Produzir vinho de talha é uma arte que desafia a ló - gica da enologia moderna. É um processo de entrega e confiança na natureza, em que a intervenção é mí - nima e o controlo é relativo. Os desafios são imensos e manifestam-se em várias frentes, desde a técnica apurada até ao investimento avultado e à escassez de recursos, tanto materiais como humanos. Para Teresa Caeiro, herdeira de uma longa tradi- ção familiar, “o maior desafio, sem dúvida, será a técnica e a confiança no processo. Quando se estuda enologia ou já se produz vinho de forma convencional, e se vai tentar fazer este vinho, o processo troca-nos as voltas.” Esta inversão de paradigma é o cerne da questão. Em vez de corrigir e guiar o vinho com leveduras selecionadas e controlo de temperatura rigoroso, o produtor de talha acompanha e confia nas levedu - ras indígenas e na inércia térmica do barro. Ricar- do Santos detalha um dos riscos: “Com as alterações

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