GRANDE CONSUMO
O futuro do vinho de talha reside num equilíbrio delicado: como crescer para responder à procura sem descaracterizar a sua essência? O risco é real. Pedro Ribeiro alerta para os “atalhos industriais”, como o uso de “talhas falsas” (depósitos de outros materiais revestidos a barro) ou a prática de apenas “acabar” o vinho em talha para usar o nome no rótulo
No entanto, nem todos os produtores sentem esta pressão da mesma forma. Teresa Caeiro, cuja família possui cerca de 100 talhas, das quais utiliza apenas 30, afirma não ter sentido qualquer crise de fornecimento. “Ainda se veem pessoas a vender talhas em carrinhas, na rua, como se vendessem carros. Há mui- tas pessoas para quem as talhas ocupam muito espaço e simplesmente vendem-nas” , refere. Esta disparidade de experiências sugere que, embora existam talhas dis- poníveis, o acesso pode ser uma questão de rede de contactos e conhecimento local. Surgem alternativas, como talhas novas, ânforas de Itália ou da Geórgia e depósitos de cimento. Con- tudo, há um consenso de que não são substitutos perfeitos. “Não há barro como o de antigamente” , cita Teresa Caeiro. E Ricardo Santos acrescenta que as talhas novas não têm a mesma espessura, afetando a estabilidade da temperatura. As ânforas estrangei- ras, muitas vezes revestidas de inox no interior, alte- ram completamente o processo. O cimento, por sua vez, não permite a aplicação da pesgagem – o reves- timento interior com cera de abelha e resina (pez) – que impermeabiliza a talha e lhe confere notas aromáticas únicas. Teresa Caeiro, que possui duas talhas de cimento revestidas como as de barro, nota que “os vinhos ficam mais aromáticos” , mas reconhece que o perfil é diferente. A talha no palco mundial Apesar das limitações de produção, o apelo do vinho de talha transcendeu fronteiras. Cerca de dezena e meia de mercados internacionais já se renderam a este néctar, com destaque para os Estados Unidos, Japão, Brasil e países do norte da Europa. A razão do sucesso? A sua autenticidade e a associação ao crescente movimento dos vinhos naturais e de baixa intervenção. “A maior recetividade nos Estados Unidos é muito por culpa do vinho de talha ter pouca ou nenhu- ma manipulação, sendo um pouco associado ao vinho na - tural, facilitando a entrada em vários mercados onde os vinhos convencionais não entrariam” , explica o enólo- go da XXVI Talhas, que exporta cerca de 80% da sua produção. No Japão, para além desta vertente, é a história que fascina. A ideia de beber um vinho feito com uma técnica de dois mil anos tem um apelo imenso. Nos mercados do norte da Europa, como a Bélgica, os Países Baixos ou a Finlândia, Teresa Caeiro nota uma abertura para “vinhos diferentes, histórias autênti- cas, pequenos produtores e vinhos naturais” . França, Rei- no Unido e Alemanha, mercados com forte cultura de vinhos de nicho, também demonstram crescente interesse, com as garrafeiras e os wine bars a procura- rem ativamente produtos com identidade forte. No entanto, a exportação amplifica os desafios, especialmente o da comunicação. É preciso educar o consumidor, o sommelier e o importador sobre o que esperar: um vinho que pode ser turvo, com uma textura rica, taninos presentes (mesmo nos brancos,
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