bebidas
N.97
“confiar nas pessoas mais velhas, ouvi-las e ter em conside - ração as suas opiniões. São eles os guardiões de todo o sa - ber-fazer.” A Adega das Flores reforça: “Mais importante que tudo é produzir vinhos de qualidade, mantendo sempre o método tradicional, que exige tempo, paciência e respeito por uma tradição é o verdadeiro fator diferenciador.” Ricardo Santos aponta para uma bifurcação no caminho: por um lado, a produção tradicional para venda a granel, um costume social que está a desa- parecer com as gerações mais velhas; por outro, o futuro promissor da produção de vinho de talha en- garrafado e certificado, liderado por uma nova vaga de produtores jovens e qualificados. “O futuro do vi- nho de talha da forma menos comercial, ou seja, da for- ma antiga de venda direta em jarros nas adegas, é o maior desafio, pois esse está apenas ‘entregue’ a pessoas mais ve - lhas e para a qual, infelizmente, não vejo continuidade. Por outro lado, na produção de vinho de talha engarrafa - do e certificado, há vários produtores jovens e com futuro garantido” , afirma. É nesta segunda via que reside a esperança da continuidade e da afirmação global. O enoturismo, com rotas dedicadas e a possibilida- de de visitar estas adegas-museu, desempenha tam- bém um papel vital, criando uma ligação emocional e económica que ajuda a sustentar este património. O apoio institucional, através de programas de for- mação, incentivos à produção de talhas e promoção internacional coordenada, é igualmente essencial. Como refere Luís Sequeira, “só combinando formação, capacidade produtiva, renovação de produtores e suporte institucional será possível aumentar a escala de produção e comercialização sem comprometer a autenticidade e o va - lor cultural que tornam os vinhos de talha únicos.” O renascimento do vinho de talha é mais do que uma tendência; é a prova de que, no mundo do vi- nho, as raízes mais profundas podem gerar os frutos mais surpreendentes e duradouros. É uma lição de humildade, de respeito pela natureza e pela história e um lembrete de que, por vezes, o futuro está no passado.
que muitas vezes apresentam uma cor âmbar ou alaranjada devido à maceração com as películas) e um perfil aromático distinto, com notas terrosas, de fruta de caroço e especiarias. “Se nem todo o público português sabe o que é vinho de talha, ainda é mais difí- cil explicar fora de Portugal” , desabafa Ricardo Santos. A comunicação da diferença entre um vinho certi- ficado como DOC Alentejo Vinho de Talha e outros vinhos que apenas mencionam a talha no rótulo é também crucial, pois só os primeiros demonstram que os vinhos foram feitos recorrendo a técnicas an- tigas, com controlo rigoroso por parte da CVRA. Os pequenos lotes dificultam a logística e a pre - sença contínua nos mercados. A Adega das Flores é clara: “O maior desafio será sempre, sem dúvida, conse - guir dar resposta em termos de quantidades. A quantida- de que produzimos permite dar resposta a um mercado se falamos em caixas, mas dificilmente conseguiremos dar resposta a um mercado que nos fala em várias encomen- das de mais que uma palete.” Esta limitação mantém o vinho de talha, por agora, num nicho premium , mas ao mesmo tempo ajuda a preservar o seu carácter ar- tesanal e o seu posicionamento exclusivo. Crescer sem perder a alma O futuro do vinho de talha reside num equilíbrio de- licado: como crescer para responder à procura sem descaracterizar a sua essência? O risco é real. Pedro Ribeiro alerta para os “atalhos industriais” , como o uso de “talhas falsas” (depósitos de outros materiais reves- tidos a barro) ou a prática de apenas “acabar” o vinho em talha para usar o nome no rótulo. A salvaguarda passa por um reforço do controlo e da certificação por parte de entidades como a CVRA, que já exige, por exemplo, que o vinho permaneça em contacto com as massas nas talhas até, pelo menos, ao dia de São Mar- tinho (11 de novembro) para poder ostentar a menção DOC. Essencialmente, o futuro está nas mãos dos produ- tores. É a sua dedicação em honrar os antepassados e em preservar o saber-fazer que garantirá a longevida- de da tradição. Como sublinha Teresa Caeiro, é crucial
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