Grande Consumo N.º 97

tecnologia

N.97

Entre a necessidade de conforto térmico face a temperaturas cada vez mais extremas e o impe- rativo de uma transição energética sustentável, o mercado português de climatização vive um pe - ríodo de profunda transformação. Enquanto a tec - nologia oferece soluções cada vez mais eficientes, o custo inicial, o fim de incentivos como o IVA re - duzido e a ineficiência da maioria das habitações criam um dilema para consumidores e empresas. O sector enfrenta uma encruzilhada que definirá o futuro do conforto em Portugal. O mercado português de climatização vive um pe- ríodo de profunda transformação, impulsionado por uma “tempestade perfeita” de fatores: verões cada vez mais extremos, uma nova e exigente regulamentação europeia para a eficiência dos edifícios e uma cons - ciência ambiental crescente por parte dos consumi- dores. É uma “batalha” entre ter conforto térmico em casa, ser amigo do ambiente e não prejudicar (em de- masia) a carteira. Uma luta em que os equipamentos de ar condicionado começam a ganhar terreno. Contudo, este crescimento acelerado, que viu a procura por equipamentos de ar condicionado dis- parar 254% em junho de 2025, expõe também as fragilidades estruturais de um sector que se debate com uma crise de recursos humanos e com as parti- cularidades de um parque habitacional envelhecido. Algo que é revelado através da análise aos dados do mercado, às opiniões de especialistas e aos relató- rios da indústria. Primeiro que tudo, há que compreender as parti- cularidades do mercado nacional e as suas diferenças face a outros países, nomeadamente do norte da Eu- ropa. O comportamento do consumidor português no que toca à climatização difere significativamente do padrão observado naquela região, uma distinção que se explica tanto pelo clima como pelo poder de compra. Enquanto nos países nórdicos a preferência recai sobre as bombas de calor para aquecimento, muitas vezes integradas em sistemas hidráulicos pré-existentes, em Portugal e noutros países do sul, o ar condicionado de expansão direta (com recurso a gás refrigerante) reina de forma quase absoluta, em- bora, como aponta fonte oficial da Hisense Portugal, o consumidor português se mostre mais exigente do que os seus vizinhos espanhóis ou franceses, valori- zando a eficiência a longo prazo em detrimento do custo inicial. Cada vez mais exigente e informado, procura não só a eficiência energética, mas também características como a purificação do ar, a conectivi - dade para controlo remoto e baixos níveis de ruído. Não obstante, Diogo Joaquim, especialista em climatização e formador na Samsung Climate Solu- tions Portugal, explica aquela dicotomia: “O merca- do dos países nórdicos está mais ligado ao aquecimento. Utilizam muitos sistemas com radiadores, por exemplo, e têm aproveitado para substituir as caldeiras por bombas

de calor.” Em contrapartida, “no sul, é mais utilizado o ar condicionado, porque há maiores necessidades de frio.” Sejamos pragmáticos. A questão económica é igualmente decisiva. “O ar condicionado acaba por ser uma solução mais económica” , aponta o especialista, que refere ainda o custo de vida dos países do sul. Algo que “acaba por ser também um fator muito impor- tante” , acrescenta Diogo Joaquim. Esta realidade é corroborada por Rui Lacerda, country manager da Haier em Portugal, que nota que no norte da Europa se opta mais por soluções de água, nomeadamente caldeira e chiller , enquanto no sul se prefere a expansão direta. Esta preferência por sistemas de ar condicionado mais simples e económicos reflete-se também na for - ma como o mercado se adapta a projetos de reabilita- ção, especialmente em centros históricos, onde o es- paço para infraestruturas é limitado. A instalação de um sistema de expansão direta é consideravelmente mais simples e rápida do que a de um sistema hidráu- lico, que exige uma série de acessórios e tubagens mais complexas, tornando-o a escolha natural para a modernização do envelhecido edificado nacional. Uma tendência confirmada pelos dados de mer - cado. Segundo a Panasonic Heating & Cooling Solu- tions, 81% dos seus clientes na Europa já utilizam sistemas de ar condicionado reversíveis, tanto para arrefecimento no verão como para aquecimento no inverno, sendo que, em muitos casos, estes funcio- nam como a única fonte de aquecimento da habita- ção. Esta mudança de mentalidade é particularmen- te visível nos países do norte, onde a utilização de bombas de calor para aquecimento ultrapassa os 95% na Noruega e Dinamarca, enquanto em países com climas mais amenos, como Portugal, Espanha e Itália, a percentagem ainda ronda os 43%, mas en- contra-se em crescimento constante. O mercado português de climatização apresenta números que refletem esta evolução. Em 2021, o sec - tor atingiu um valor de 200 milhões de euros, regis- tando um crescimento de 8% face ao ano anterior. O mercado ibérico, no seu conjunto, fechou esse ano A eficiência energética é, talvez, o tema mais central e complexo que o sector da climatização enfrenta. Este desafio desdobra- se em duas frentes interligadas: a performance dos próprios equipamentos e a qualidade do parque edificado onde estes são instalados

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