Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

as pessoas continuem a pensar que o ar condiciona- do e as bombas de calor lhes trazem consumos maio- res e custos acrescidos, uma perceção que não cor- responde à realidade tecnológica atual. “Somos nós, fabricantes, que estamos a falhar. Quem está envolvido no mercado não está a conseguir passar a mensagem” , reco- nhece. Esta falha de comunicação tem consequên- cias práticas: muitas famílias continuam a optar por soluções de aquecimento menos eficientes, como termoacumuladores elétricos, que continuam a ter um mercado robusto em Portugal, apesar de serem praticamente inexistentes em novas construções. O calcanhar de Aquiles: um parque habitacional ineficiente No debate sobre eficiência, é crucial distinguir entre sistemas de ar condicionado fixos ( split ) e as solu- ções portáteis. Segundo a APIRAC, os sistemas fixos são “claramente superiores” em termos de eficiência energética. Embora os aparelhos portáteis sejam mais baratos e não exijam uma instalação comple- xa, são menos eficientes, mais ruidosos e obrigam à colocação de um tubo de evacuação numa janela, o que pode potenciar perdas energéticas. Em contra- partida, o investimento inicial mais elevado de um sistema fixo “compensa devido à eficiência energética do equipamento” , garante a associação. Mas de pouco serve ter o equipamento mais efi - ciente do mercado se o edifício onde opera for um sorvedouro de energia. E essa é a realidade da esma- gadora maioria do parque habitacional português. Dito de outra forma, o maior obstáculo à climati- zação eficiente em Portugal não reside nos equipa - mentos, mas no edificado. De facto, de acordo com dados do Eurostat cita- dos pela Thermor, uma marca do Grupo Atlantic, 68% dos edifícios residenciais em Portugal têm clas- ses energéticas baixas (C ou inferiores). Nuno Roque, diretor-geral da APIRAC, complementa, dando conta de que se trata de uma tendência não exclusiva de Portugal, já que 75% dos edifícios da União Europeia são ineficientes do ponto de vista energético. E, de - talha, aquecer e arrefecer estes edifícios representa 50% do consumo de energia final. É uma realidade: o edificado nacional é compos - to maioritariamente por edifícios antigos e cons- truídos com pouca ou nenhuma preocupação com o isolamento térmico. E estas são características que condicionam o tipo de equipamento a instalar, como explica a Hisense: em remodelações de edifí- cios mais antigos, a instalação de sistemas multi-split pode ser mais invasiva, levando muitos consumido- res a optar por sistemas mono-split (uma unidade ex- terior para cada unidade interior). Portugal enfrenta, assim, um desafio monumen - tal já que se estima que os edifícios sejam respon- sáveis por cerca de 30% do consumo de energia no país. Um número que, nos próximos anos, vai ter de mudar. A União Europeia está a apertar o cerco, atra-

Ar Saudável: da intenção à verificação técnica

“A qualidade de vida resulta em muito daquilo que é a qualidade do ar que respiramos nes- ses ambientes interiores.” A afirmação de Nuno Roque, diretor-geral da APIRAC, sinte- tiza a premissa que sustenta o selo Ar Saudá- vel: a qualidade do ar interior é uma questão de saúde pública, sobretudo quando passa- mos cerca de 90% do tempo em espaços fe- chados. Criado em articulação com a Direção-Geral de Saúde durante a pandemia, o selo nasceu da necessidade de assegurar a reativação se- gura dos sistemas de climatização e ventila- ção (AVAC). A sua primeira aplicação simbó- lica ocorreu no Centro Cultural de Belém, no âmbito da Presidência Portuguesa do Con- selho da União Europeia, em 2021, após uma avaliação técnica solicitada pelas autoridades de saúde. Mas o diferencial está no modelo. “Há uma di- ferenciação total entre aquilo que é um plano de intenções e aquilo que é uma verificação de condições” , sublinha Nuno Roque. Ao con- trário de selos baseados em compromissos declarativos, o Ar Saudável implica uma audi- toria técnica e a verificação cíclica da confor- midade. Um dos critérios “inultrapassáveis” é a existência de um contrato de manutenção com uma empresa certificada, garantindo o acompanhamento contínuo e qualificado dos sistemas. Para o responsável, o selo cumpre uma dupla função: apoiar a fiscalização num domínio al- tamente técnico e permitir aos operadores comunicar uma garantia validada por uma entidade independente. “Temos uma entida- de idónea que está a validar a existência das condições alinhadas com os referenciais de saúde e eficiência” , reforça. Num contexto em que o tema só ganha visi- bilidade “quando existe uma notícia que nos coloca todos em sobressalto” , o selo posicio- na-se como instrumento estruturante de con- fiança, elevando os padrões de qualidade do ar nos espaços que todos partilhamos.

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