mercado
N.97
A sustentabilidade tornou-se uma palavra central no discurso empresarial, político e social. Nos últimos anos, empresas, governos e consumidores passaram a reconhecer a urgência de reduzir emissões, prote- ger recursos naturais e garantir cadeias de abaste- cimento mais responsáveis. Mas, à medida que os compromissos ambientais se tornam mais exigentes – impulsionados pela regulamentação europeia, por pressão dos investidores e pelas expectativas sociais –, torna-se claro que a transição tem um preço. É ine- vitável, mas não é gratuita. Materiais reciclados, energias renováveis, cer- tificações ambientais ou cadeias de abastecimento mais transparentes exigem investimento, adaptação tecnológica e industrial e, em muitos casos, custos adicionais. O resultado é claro: a sustentabilidade tem um custo real. E no sector de bens de grande consumo, esta realidade é particularmente eviden- te. Em muitos casos, estes custos surgem antes de qualquer retorno económico direto, criando um di- lema para as empresas: como financiar a transição sem comprometer a competitividade num mercado altamente sensível ao preço? Entre a responsabilidade e a rentabilidade De facto, para muitas empresas, a sustentabilidade deixou de ser apenas um elemento reputacional ou de comunicação para se tornar um imperativo estra- tégico e regulatório. A implementação de objetivos de neutralidade carbónica, a adaptação às novas re- gras europeias sobre embalagens ou a integração de critérios ESG (Environmental, Social & Governance) nas operações implicam investimentos significati - vos. Veja-se o exemplo da Danone e da sua transição para soluções circulares, que caracteriza como um dos maiores desafios financeiros. Pedro Neves, head of general secretary Portugal & regulatory Iberia , expli- ca que a substituição de materiais tradicionais por alternativas recicláveis ou recicladas implica uma profunda transformação, que exige investimentos A sustentabilidade tornou-se uma prioridade in- contornável para empresas, governos e consumi- dores. Reduzir emissões, substituir matérias-pri- mas convencionais por alternativas recicladas ou garantir cadeias de abastecimento responsáveis são objetivos amplamente assumidos. Mas há uma realidade frequentemente menos discutida: pro- duzir de forma sustentável custa mais. A questão central torna-se, então, inevitável: quem paga a sustentabilidade? As empresas, através da redução das margens? Os governos, através de incentivos e investimento público? Ou os consumidores, acei - tando pagar mais por produtos com menor impac- to ambiental? A resposta, cada vez mais evidente, é que os custos estão a ser distribuídos entre todos os atores da cadeia de valor, ainda que de forma desigual.
significativos em inovação e adaptação tecnológica. “A substituição de materiais convencionais como o plás - tico PS (polistereno) por opções mais recicláveis como o plástico PET implica não só o redesenho das embalagens, mas também a reconfiguração das linhas de enchimento e selagem, que foram inicialmente concebidas para operar com plásticos diferentes.” E a complexidade aumenta quando se considera a diversidade de categorias. No caso das águas, por exemplo, o desafio inclui ainda o aumento da incor - poração de plástico reciclado e a transição para sis- temas reutilizáveis. Mas os custos não se limitam às embalagens. Na origem da cadeia de valor, o sourcing responsável im- plica processos produtivos mais exigentes e, muitas vezes, mais caros. “Promovemos práticas como a agri- cultura regenerativa, que protege os solos, maximiza o uso da água da chuva e promove o bem-estar animal. Estas práticas são mais exigentes e implicam custos superiores” , confirma o gestor. Também a transição energética implica decisões estruturais. A Danone decidiu que todas as suas fá- bricas ibéricas operariam com energia 100% renová- vel, uma decisão alinhada com os seus compromis- sos climáticos. “Embora represente um custo operacional mais elevado, acreditamos que é um investimento no futu- ro” , sublinha Pedro Neves. Estas escolhas ilustram um dilema cada vez mais presente no sector: a sustentabilidade exige investimento antes de gerar retorno. Certo é que, na generalidade das empresas de bens de grande consumo, os investimentos estão hoje assimilados na estratégia de negócio. Na L'Oréal, por exemplo, a sustentabilidade atravessa toda a organização e está integrada nos resultados financeiros. Como explica Ana Sofia Amaral, responsável de sustentabilidade, CSR e diretora científica da empresa em Portugal, os custos associados à transição verde estão distri- buídos por várias áreas do negócio, uma vez que a transformação envolve toda a cadeia de valor, desde a redução das emissões de carbono até à utilização “Estes encargos não podem ser suportados apenas pelas empresas. É fundamental um esforço partilhado: do Estado, que deve reduzir custos de contexto e criar incentivos, e dos cidadãos, que assumem um papel decisivo no uso e destino final dos produtos”
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