Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

Este quadro regulatório crescente reflete uma mu - dança estrutural na forma como a sustentabilidade é tratada na economia europeia: de uma lógica vo- luntária ou reputacional para um modelo cada vez mais normativo e obrigatório. E aqui surge mais um problema. Se é certo que a regulação europeia é essencial para harmonizar as regras e acelerar a transição, traduz-se também em custos significativos. “Desde a adaptação de embala - gens até à rastreabilidade das cadeias de abastecimento, havendo diversos casos de excessos regulatórios, alguns dos quais vêm sendo corrigidos” , nota Pedro Pimentel. Estes encargos, quando suportados isoladamente pelas empresas, colocam pressão sobre a competi- tividade. “Daí a importância de sensibilidade das enti- dades nacionais para uma equilibrada aplicação dessas regras, de um enquadramento regulatório estável e da sen- sibilização dos consumidores para o valor real de escolhas sustentáveis” , acrescenta. O Governo português tem dado sinais de alinha- mento com as metas europeias, mas, de acordo com a Centromarca, nalgumas situações, parece tender para alguns “excessos regulatórios, inclusive para lá das metas europeias” . Além disso, os mecanismos de apoio às empresas ainda são “insuficientes, complexos e pouco céleres” , acrescenta. “Para que a sustentabilida- de seja motor de competitividade, é necessário reforçar incentivos fiscais, linhas de financiamento e simplificação regulatória.” É neste contexto que emerge um debate cada vez mais presente entre empresas, reguladores e econo- mistas: até que ponto o sector público deve financiar a transição e até que ponto deve limitar-se a criar re- gras e deixar o mercado adaptar-se? Consumidores: do querer ao fazer Se empresas e governos são atores fundamentais, os consumidores continuam a ser apresentados como motor da mudança. Mas os números apontam uma realidade mais complexa. “Temos dados que mostram que mais de 90% dos consumidores refere preferir eleger produtos mais sustentáveis, mas, quando implica pagar mais por isso, nem 20% está disposto a fazê-lo” , resume Pedro Neves. Efetivamente, são vários os estudos que indicam que uma parte crescente da população afirma prefe - rir produtos sustentáveis e valorizar marcas respon- sáveis. No entanto, quando confrontados com o pre- ço no momento da compra, muitos consumidores optam ainda pela alternativa mais económica. De acordo com o Fórum Económico Mundial, cerca de 65% dos consumidores afirma querer comprar pro - dutos mais sustentáveis, mas apenas 26% acaba por fazê-lo de forma consistente. O preço continua a ser o principal fator de decisão na maioria das catego- rias de grande consumo, especialmente em períodos de pressão inflacionista. E no contexto europeu, esta realidade torna-se ainda mais evidente. Um estudo do Comissão Euro-

Danone

Na Danone, os principais custos associados à sustentabilidade concentram-se em áreas como embalagens, matérias-primas e ener- gia, refletindo uma estratégia de longo prazo que procura integrar práticas responsáveis em toda a cadeia de valor. A empresa tem vindo a investir na transição para embalagens mais circulares, eliminando plásticos desne- cessários – como tampas e sleeves –, o que já permitiu reduzir cerca de 280 toneladas de plástico por ano em Portugal. A transformação das embalagens implica investimentos significativos em inovação e adaptação industrial, sobretudo em catego- rias como iogurtes, águas e bebidas vegetais. Por exemplo, a substituição de plásticos tra- dicionais por materiais mais recicláveis exige o redesenho das embalagens e a reconfigu- ração das linhas de enchimento e selagem. Paralelamente, a empresa procura aumentar a incorporação de PET reciclado (rPET) e de- senvolver soluções reutilizáveis ou de refill . A sustentabilidade começa também na ori- gem das matérias-primas. A Danone tem vin- do a promover práticas de agricultura rege- nerativa, que protegem os solos, otimizam o uso da água da chuva e promovem o bem-es- tar animal, embora impliquem custos adicio- nais. No plano energético, todas as fábricas ibéricas da empresa operam com 100% de energia renovável, refletindo o compromisso com a redução da pegada de carbono. Apesar do crescente interesse dos consumi- dores por produtos sustentáveis, a empresa reconhece que o preço continua a ser um fator determinante. Por isso, a estratégia da Dano- ne passa por associar sustentabilidade a valor acrescentado e benefícios nutricionais, refor- çando a diferenciação de marcas como Acti- via, Actimel, Alpro, Yopro ou Danacol.

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