Grande Consumo N.º 97

mercado

N.97

A contagem decrescente para o novo regime euro- peu de reporte ESG (do inglês Environmental, Social and Governance; ambiental, social e governação) – que culminará no envio obrigatório de dados para a plataforma digital da União Europeia – está a expor uma realidade desconfortável: a esmagadora maio- ria das empresas não está preparada. Não registam a sua pegada de carbono, não medem os seus impactos sociais e têm processos dispersos, manuais e pouco confiáveis. Num contexto em que o greenwashing e o greenhushing se tornaram riscos reputacionais reais e em que os investidores exigem transparência, a tec- nologia deixa de ser opcional: passa a ser a espinha dorsal da sustentabilidade corporativa. É esta a vi- são de Mario Izquierdo, head of SAP S/4HANA Portugal & ESG solutions da Stratesys, que deixa o alerta: mais de 95% das organizações com que a tecnológica tra- balhou continua a gerir os processos de recolha de informação e cálculo de indicadores ESG de forma não automatizada. O novo marco europeu A entrada em vigor da Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), a Diretiva Europeia sobre o Reporte de Sustentabilidade Corporativa, representa a maior reconfiguração do reporting em- presarial desde a adoção generalizada das normas financeiras internacionais. Criada para substituir a Non-Financial Reporting Directive (NFRD), a Di- retiva de Relato Não Financeiro, cuja abrangência limitada e falta de granularidade tornavam impos- sível comparar o desempenho não financeiro das empresas europeias, a nova diretiva impõe uma mudança profunda no modo como as empresas re- colhem, consolidam e divulgam dados ambientais, sociais e de governança. Segundo explica Mario Izquierdo, “a CSRD estabelece um novo marco regula - tório” que impõe maior transparência, normas de relato harmonizadas, verificação independente e a obrigatoriedade de submeter as informações em formato digital, através da plataforma European Single Access Point (ESAP). A nova era do reporte de sustentabilidade está a reconfigurar de forma profunda a gestão empre - sarial na Europa. As empresas estão perante uma exigência inédita de transparência, rigor e com- parabilidade e a esmagadora maioria não está preparada. Com dados ESG dispersos, processos manuais e fraca cultura de monitorização, grande parte das organizações portuguesas continua lon - ge do que será obrigatório no espaço europeu. No centro desta transformação, emerge um fator in - contornável: só com tecnologia – e, em particular, com inteligência artificial – será possível garantir a credibilidade, a rastreabilidade e a automatiza- ção que exigem os reguladores, os investidores e os consumidores.

Mas se o enquadramento legal ganhou robustez, o mercado ficou a meio caminho da preparação. Em março de 2025, a União Europeia aprovou o pacote legislativo Omnibus I, uma revisão estrutural des- tinada a reduzir a carga administrativa e a reforçar a competitividade europeia. Este processo levou ao adiamento de dois anos da implementação plena da CSRD para grandes empresas privadas e Peque- nas e Médias Empresas (PME) cotadas. De acordo com Mario Izquierdo, o objetivo foi garantir “maior segurança jurídica” num momento em que muitas or- ganizações pediam clarificação. Criou-se, de facto, uma sensação de alívio, mas também alimentando a inércia: empresas que estavam a iniciar investimen- tos suspenderam decisões, adiando a construção das capacidades tecnológicas essenciais ao futuro ESG. O resultado? A maioria continua sem sistemas, sem processos e sem cultura interna preparada para o novo paradigma. De facto, a maturidade ESG permanece muito desigual. As fragilidades surgem nos três pilares da sustentabilidade, mas não por igual. O responsável da Stratesys identifica o “elo mais fraco” : o social. “Muitos dos seus indicadores não são integrados em sis - temas de gestão específicos, o que dificulta a sua monito - rização e reporte” . Já o pilar de governação está “geral- mente mais bem estruturado” , mas também carece de soluções que automatizem o seu tratamento. O am- biental, em contrapartida, apresenta maior atenção, sobretudo no consumo energético, ainda que incom- pleto e fragmentado. Em comum, existe um entrave transversal: os dados continuam espalhados por ERP (do inglês En- terprise Resource Planning, sistemas integrados de gestão que centralizam dados de diferentes áreas da empresa, como finanças, compras, produção ou lo - gística), recursos humanos, compras, energia, ope- rações e dezenas de folhas de Excel. A dependência do trabalho manual torna o processo lento, vulnerá- vel a erros e impossível de auditar com o rigor exigi- do pela CSRD. “Encontramos, muitas vezes, indicadores críticos que são atualizados manualmente por pessoas diferentes, sem controlo de versões e sem qualquer meca- nismo de validação. Este nível de fragmentação é um dos maiores entraves à preparação para a CSRD” , descreve.

Combinada com a automação, a IA torna possível um futuro próximo em que o ESG está embutido na própria lógica financeira da empresa

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