Grande Consumo N.º 97

mercado

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A distância das PME Esta é, contudo, uma transformação afastada das PME. Apesar da proliferação de soluções tecnológi- cas, estas continuam fora do alcance de muitas. Os contratos Software as a Service (SaaS) de três a cinco anos criam barreiras e o retorno do investimento é difícil de medir. “Quase todas apresentam um custo mé- dio ou elevado, sendo percebidas como um custo anual e não como um investimento estratégico” , refere o respon- sável da Stratesys, concluindo que “apenas as grandes empresas estão atualmente a avançar com este tipo de pro - jetos.” Até porque, embora existam plataformas mais acessíveis, estas têm funcionalidades limitadas. E a falta de obrigatoriedade imediata faz com que mui- tas adiem o inevitável, arriscando ficar para trás. “Es - tamos a observar que os bancos e investidores começam a integrar métricas ESG na avaliação de risco. Isso significa que empresas com melhor desempenho ambiental, social e de governance podem obter condições financeiras mais vantajosas, seja em taxas de juro, seja em acesso a deter- minados instrumentos de financiamento” , exemplifica. A Stratesys tem implementado projetos de sus- tentabilidade em vários mercados. Na América La- tina, as iniciativas focam-se sobretudo em platafor- mas ESG centradas na recolha de métricas sociais e ambientais e em soluções de rastreabilidade para cumprimento do EUDR. Na Europa, ocorreram pro- jetos de cálculo do imposto sobre plásticos não reu- tilizáveis em Espanha e em empresas portuguesas com operações no mercado espanhol, bem como implementações de cálculo automático de pegada de carbono e plataformas para antecipação da CSRD. Em Portugal, destaca-se um piloto pioneiro em economia circular, uma prova de conceito que visa garantir a rastreabilidade dos plásticos reutilizáveis. “A visão final é criar uma plataforma nacional portugue - sa que certifique a rastreabilidade dos plásticos” , tornan- do esta informação visível até ao consumidor final, detalha. Se bem-sucedida, poderá tornar Portugal o primeiro país no mundo com uma plataforma deste tipo. A maturidade ESG continua muito desigual. As fragilidades surgem nos três pilares da sustentabilidade – ambiental, social e governance – mas não por igual. O responsável da Stratesys identifica o “elo mais fraco”: o social

Hoje, já existem plataformas ESG que incorpo- ram normas de reporte – como a Global Reporting Initiative (GRI), um dos principais referenciais in- ternacionais para relatórios de sustentabilidade, ou os European Sustainability Reporting Standards (ESRS), que definem o conteúdo e a estrutura dos relatórios – que permitem gerar relatórios comple- tos e integram dashboards que monitorizam objeti- vos em tempo real. Surgiram também soluções es- pecializadas para o cálculo da pegada de carbono e ferramentas de homologação de fornecedores em matéria de sustentabilidade. A entrada em vigor da European Union Deforestation Regulation (EUDR), o Regulamento Europeu contra a Desflorestação, está ainda a impulsionar tecnologias de rastreabi- lidade – inclusive blockchain – que garantem a ori- gem sustentável de matérias-primas. IA: o acelerador que liga os dados à decisão A inteligência artificial (IA) está a transformar este processo de forma estrutural, ao permitir a análise de grandes volumes de dados e a identificação de padrões, a previsão de riscos ambientais e sociais e a monitorização permanente dos consumos ener- géticos e de outros indicadores-chave, sugerindo automaticamente ações corretivas. Combinada com a automação, a IA torna possí- vel um futuro próximo em que o ESG está embutido na própria lógica financeira da empresa. “A tecnolo- gia vai conseguir automatizar todo o processo de recolha, cálculo, apresentação e envio da informação, de forma a permitir o acesso a todos esses dados em tempo real e inclusive – e isto é muito importante – ligar o mundo da contabilidade financeira com o mundo das emissões associadas a cada lançamento contabilístico” , crian- do “uma Profit & Loss (P&L) tanto em valor económico como em emissões, o que possibilitará analisar, nas ati- vidades económicas de uma empresa, a correlação entre as receitas e despesas e as emissões geradas” , descreve Mario Izquierdo. É a integração entre performance económica e impacto ambiental que irá definir o futuro da gestão empresarial. A IA permitirá que as empresas tomem decisões operacionais e estratégi- cas com base em dados ESG tão sólidos quanto os financeiros. Ora, se é certo que a digitalização aumenta a fiabilidade do reporte, não garante por si só a eli - minação do greenwashing . “O problema é credenciar a veracidade dos dados reportados” , sublinha. As plata- formas permitem rastrear informação, anexar pro- vas documentais e validar dados antes da sua publi- cação. No entanto, o especialista é taxativo: “Até que as auditorias realizadas em matéria de sustentabilidade estejam no mesmo nível de rigor das auditorias financei - ras, o greenwashing poderá sempre continuar a existir.” É o alinhamento entre tecnologia, auditoria e regu- lamentação que permitirá um ambiente verdadei- ramente livre de práticas enganadoras e capaz de combater também o greenhushing .

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