GRANDE CONSUMO
A governança ESG exige compromisso, rotina e uma transformação cultural muito mais profunda do que a simples adoção de uma ferramenta. Até porque o impacto das novas regras será profundo na relação entre empresas e investidores
O obstáculo invisível que pode travar tudo Sendo certo que a tecnologia resolve problemas téc- nicos, não substitui o alinhamento interno. A sus- tentabilidade continua muitas vezes confinada a um departamento isolado, quando deveria ser responsa- bilidade transversal. “A sustentabilidade não é apenas uma questão da área de sustentabilidade, mas uma res - ponsabilidade de todas as áreas da empresa, e esse aspeto por vezes não é compreendido” , explica Mario Izquierdo. A governança ESG exige uma transformação cul- tural muito mais profunda do que a simples adoção de uma ferramenta. Até porque o impacto das novas regras será profundo na relação entre empresas e in- vestidores. “O mercado exige cada vez mais que a infor- mação reportada seja verdadeira, auditável e pública” , o que contribuirá para reforçar a confiança e reduzir a margem para subjetividade ou manipulação de nar- rativas sustentáveis. No entanto, o especialista avisa para a assimetria global: enquanto a Europa avança para um modelo de sustentabilidade obrigatória, outros mercados – como os Estados Unidos da América, a China ou a Rússia – não acompanham este ritmo. Tal poderá criar tensões entre investimento ético e retorno fi - nanceiro, com os investidores a privilegiarem mer- cados menos regulados. Para quem ainda não começou a preparar-se, a recomendação é clara: “A legislação está em constante evolução e o reporte será obrigatório. Por isso, considero que esta é uma das poucas áreas onde faz sentido preparar os processos de forma antecipada” , afirma. Mesmo com o adiamento, é necessário começar já, partindo da análise de dupla materialidade. “Essa análise permite identificar os aspetos essenciais nas vertentes ambiental, social e de governação, reconhecendo quais têm maior im - pacto tanto sobre a empresa como sobre o meio ambiente e a sociedade” , detalha. É seguida da construção de um plano de susten- tabilidade que inclua objetivos reputacionais, “tão importantes como os regulatórios” , porque “reforçam a confiança dos clientes, investidores e colaboradores” , e da identificação das fontes de dados que irão suportar o reporte futuro. “As empresas que começarem agora terão tempo para aprender e tomar consciência de que não se trata apenas de reportar, mas de serem verdadeiramente sustentáveis. Uma coisa é cumprir, outra coisa é ser sus- tentável. Cumprir é responder ao regulador; ser sustentá- vel é integrar estas práticas na estratégia, nas operações e na cultura da empresa.” A exigência de transparência e rigor, combinada com o poder das tecnologias digitais e da inteligên- cia artificial, está a transformar o modo como as em - presas recolhem, analisam e comunicam o seu im- pacto. Num contexto marcado pelo risco crescente de greenwashing e greenhushing , as organizações de- vem ser capazes de integrar tecnologia, cultura de dados e compromisso real com a sustentabilidade. O mercado já não aceita narrativas, apenas provas.
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