Grande Consumo N.º 97

tema de capa

N.97

tema de capa O culto da pechincha texto CARINA RODRIGUES fotografia D.R.

Num país onde o poder de compra con- tinua pressionado, os padrões de con- sumo transformam-se a ritmo acele- rado. Mas não se trata apenas de uma transformação económica – trata-se de uma mudança quase ritual. A chegada praticamente simultânea de insígnias de base não alimentar como a Pepco, a KiK, a NORMAL e a TEDi desencadeou um fenómeno com impacto cultural e económico profundo: a consagração da compra inteligente como prática domi- nante. Tal como aconteceu com os dis- counts alimentares nas décadas de 1990 e 2000, o retalho português volta a ser palco de um movimento que combina racionalidade, conveniência e prazer. Mas, desta vez, a lógica do valor ultra - passa o argumento económico: trans - forma-se em código moral. Comprar bem é virtude. Poupar é competência. E a pechincha deixa de ser oportunida- de ocasional para se tornar princípio orientador. Um modo de estar, susten- tado por um consumidor que abraça o equilíbrio entre custo e benefício como expressão de identidade.

Durante décadas, o retalho não alimentar português evoluiu de forma relativamente estável, ancorado nos centros comerciais, nos hipers e nas marcas especializadas. Era um território pre- visível, organizado, confortável nas suas rotinas. Mas, nos últi- mos anos, algo mudou – e mudou depressa. Pepco, KiK, NOR- MAL e TEDi, quatro gigantes internacionais do modelo low-cost non-food , chegaram quase em simultâneo e abriram uma nova frente competitiva num mercado que, até então, parecia madu- ro. Como se várias portas se tivessem aberto ao mesmo tempo. Como se o mesmo sinal tivesse sido lido, em diferentes geogra- fias, com a mesma clareza. Entre 2022 e 2023, num intervalo inferior a dois anos, estas insígnias inauguraram as suas primeiras lojas em Portugal: a NORMAL em outubro de 2022, a TEDi em novembro do mesmo ano e a Pepco e a KiK em maio de 2023. E no ano seguinte, em fevereiro, juntou-se-lhes a Action. Esta sequência não foi aleatória. Coincidiu com o período de maior pressão inflacionista das últimas décadas, quando o Índi - ce de Preços no Consumidor atingiu 7,8% em 2022, antes de de- sacelerar progressivamente para 2,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Um período que instalou, de forma duradoura, uma cultura de vigilância, comparação e prudência no consumo. Mesmo após a normalização da inflação, os efeitos compor - tamentais não desapareceram e o nível geral de preços perma- neceu mais elevado do que antes do choque inflacionista. E com ele consolidaram-se hábitos: planear, comparar, conter, avaliar. Comprar deixou de ser espontâneo para se tornar um exercício de consciência. O Banco de Portugal assinalou para 2024 uma

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