GRANDE CONSUMO
O consumidor faz trade-down onde pode, mas não onde sente risco. Esta dualidade – um consumidor premium no que considera essencial e profundamente contido no resto – abre espaço para modelos que oferecem exatamente aquilo que ele procura: valor sem fricção, preço sem culpa, descoberta acessível e racionalidade económica. É neste terreno que floresce o chamado “culto da pechincha”
Contudo, esta racionalização é seletiva. Em categorias conside- radas críticas, como eletrónica, produtos para bebé ou saúde, 77% evita marcas próprias e 70% receia que alternativas mais baratas não ofereçam o mesmo desempenho. O consumidor faz trade-down onde pode, mas não onde sente risco. Esta dualida- de – um consumidor premium no que considera essencial e pro- fundamente contido no resto – abre espaço para modelos que oferecem exatamente aquilo que ele procura: valor sem fricção, preço sem culpa, descoberta acessível e racionalidade econó- mica. É neste terreno que floresce o chamado “culto da pechin - cha”. Não se trata de comprar barato por necessidade, mas de comprar bem por convicção. O culto da pechincha não é indis- criminado, é estratégico. O altar da boa compra A compressão do valor e a reconfiguração das prioridades pós - -inflação criam, assim, o palco perfeito para o retorno deste mo - delo. O relatório sublinha que o não alimentar europeu enfrenta uma das maiores transições da sua história recente: desacele- ração do consumo, premium fatigue , pressão sobre as margens, aumento dos custos operacionais, racionalização das compras e um consumidor que migra para os value retailers a uma “velocida- de sem precedentes.” Esse movimento é descrito no estudo como estruturante – não um pico conjuntural, mas uma mudança de fundamento. Em paralelo, a expansão destas cadeias foi acompanhada por uma forte componente de curiosidade social. A cobertura me- diática das primeiras aberturas registou filas, expectativa, pro - cura antecipada, transformando a chegada das lojas em peque- nos eventos urbanos. Partilha, comentários, fotografias, vídeos. A experiência de compra passou, assim, a integrar também uma dimensão de entretenimento e estatuto simbólico. Comprar pas- sou a ser também um momento socialmente relevante. A digitalização reforçou este movimento. Em 2025, Portugal registava cerca de 7,59 milhões de identidades ativas em redes sociais, criando um ecossistema propício à validação pública da compra, à partilha de achados e à comparação permanente. A “boa compra” deixou de ser um ato privado para se tornar social- mente visível e, muitas vezes, performativo. Ao mesmo tempo, a institucionalização da poupança ganhou forma através de plataformas agregadoras, programas de fideli - zação e sistemas de cashback , transformando a procura de valor num processo estruturado e contínuo. E assim, umas atrás das outras, aquelas cadeias juntaram-se a esta “liturgia”. Porquê agora? Os estudos explicam-no e os retalhistas confir - mam-o. Marta Albuquerque, managing director da KiK Portugal, sintetiza esta predisposição nacional com precisão: “Existia uma lacuna no mercado português no que diz respeito ao retalho especiali- zado de conceito discount” , sobretudo no têxtil e no não alimen- tar essencial, dois segmentos onde a KiK opera com enorme rotação e uma proposta de valor clara. A responsável sublinha que a entrada da marca foi uma resposta direta a essa oportu- nidade e que, apesar de pioneira, a decisão “não foi um salto no escuro” . Pelo contrário, “o consumidor português é altamente recetivo a ofertas com forte equilíbrio entre preço e qualidade” , o que tornou a expansão natural e sustentada. Outras insígnias “seguiram o exemplo” , não por imitação, mas porque reconheceram o mesmo sinal, iniciando “uma tendência que alterou o mercado e os hábitos dos consumidores.”
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