Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

financeiro, avança o Capgemini Research Institute, e 73% diz sentir-se recompensado ao comprar pequenos treats depois de poupar noutras categorias. O estudo da McKinsey nomeia este fenómeno de forma feliz: affordable delight . Momentos acessíveis de surpresa que reforçam a lealdade do consumidor e transfor- mam a compra numa experiência emocionalmente gratifican - te. Entre as quatro marcas, a NORMAL é a que mais enfatiza esta dimensão, ao transformar o percurso de loja numa espécie de exploração lúdica, mas todas reconhecem e capitalizam esta lógica. O grande desafio, contudo, surge quando se tenta conciliar esta promessa de valor com a exigência crescente de sustenta- bilidade. Num modelo de preços tão baixos, onde cada cêntimo conta, como garantir padrões ambientais e sociais robustos sem comprometer o posicionamento? O estudo salienta que a “sus- tentabilidade acessível” é hoje a maior tensão estrutural do sector, justificando que os retalhistas terão de ser “transparentes e pro- gressivos, ainda que pragmáticos.” Ou seja, não existe um caminho absoluto, mas um equilíbrio delicado entre intenção, capacida- de operacional e expectativas do consumidor. Os testemunhos destes quatro operadores demonstram exa- tamente esta complexidade. Jorge Barrie Ruiz afirma que o se - gredo reside em “processos de produção e logística eficazes” e em “padrões rigorosos de controlo de qualidade.” Ou seja, eficiência e disciplina operacional como alicerces para oferecer preços acessíveis sem abdicar de standards mínimos. Marta Albuquer- que exemplifica como a KiK otimiza a operação: encomenda com antecedência, trabalha com menos coleções e privilegia o transporte marítimo em vez do aéreo, reduzindo os custos es- truturais sem afetar o produto final. Fernando Strubing Gomes reforça a estratégia da TEDi ao referenciar um “rigoroso” código de conduta e auditorias per- manentes que asseguram conformidade e qualidade. Já Isabel Balsas sublinha uma visão pragmática: sustentabilidade, sim, mas nunca à custa da acessibilidade. A NORMAL valoriza a li- berdade do consumidor para tomar decisões informadas, lem- brando que “o consumo consciente deve ser uma escolha pessoal.” Este posicionamento reflete uma leitura realista das limitações estruturais do segmento, num contexto em que os consumido- res continuam a priorizar o preço e a utilidade na maior parte das categorias não essenciais. No final, os quatro modelos convergem novamente: todos procuram tornar o quotidiano mais acessível, mais funcional e mais satisfatório, sem comprometer o preço, mas conscientes de que o futuro exigirá uma harmonização cada vez mais sofisti - cada entre valor económico e responsabilidade ambiental. Esta tensão – e a forma como cada insígnia a gere – será determinan- te para moldar o próximo ciclo do retalho value em Portugal. Desafios comuns A uma promessa comum junta-se um conjunto de desafios igualmente transversais. O segmento value não cresce no vazio: cresce sob pressão. E, como sublinha o estudo da McKinsey, essa pressão é estrutural. A consultora identifica três ameaças-cha - ve que moldarão o futuro do retalho de baixo preço na Europa: a compressão contínua das margens, a volatilidade dos custos energéticos e logísticos e a escassez de talento operacional, fa- tor que afeta sobretudo insígnias de elevada capilaridade e forte dependência de equipas de loja. São tensões permanentes, que

74% dos consumidores mudaria de marca se encontrasse um preço regular mais baixo e 71% abandonaria uma marca caso esta reduzisse o tamanho do produto ou a qualidade sem comunicação clara. Mais ainda: 64% considera a shrinkflation uma prática injusta e 66% afirma preferir um pequeno aumento explícito de preço a uma redução disfarçada da quantidade

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