GRANDE CONSUMO
cisão. Portugal corresponde a essa matriz e isso explica por que razão marcas vindas de geografias tão distintas – Alemanha, Polónia, Dinamarca – encontraram aqui terreno fértil para cres- cerem em simultâneo, sem se condicionarem mutuamente. A experiência histórica com os discounts alimentares, a elevada sensibilidade ao preço e a normalização da comparação ativa criaram um ambiente onde a procura de valor não é circuns- tancial, mas cultural. Há, contudo, uma consequência que se torna incontornável: esta vaga vai obrigar o retalho tradicional português a redefinir prioridades. O estudo aponta para a polarização crescente entre formatos premium e formatos value , com a “zona média” a tor- nar-se cada vez mais vulnerável à erosão de tráfego e margens. Esta tendência é descrita como estruturante e não conjuntural: à medida que o consumidor se torna mais seletivo, tende a con- centrar gastos em experiências diferenciadas ou em formatos orientados ao valor, reduzindo a tolerância a propostas inter- médias pouco claras. Para sobreviver, os operadores nacionais terão de escolher um lado – elevar a experiência ou otimizar o preço –, abando- nando ambiguidades que já não correspondem à forma como o consumidor pensa e compra. As quatro insígnias mostram que compreenderam essa realidade antes de chegarem ao país. O investimento em sistemas, processos, logística e estrutura orga- nizacional antecedeu a expansão física. A entrada em Portugal não foi experimental, mas parte de estratégias de longo prazo sustentadas por análise de dados e replicação de modelos já tes- tados noutros mercados europeus. Por isso avançaram. E por isso estão a crescer. O culto da pechincha não é um culto do barato, mas da com- petência na compra. Se há 30 anos os discounts alimentares inau- guraram a primeira grande revolução do valor em Portugal, hoje, insígnias como a Pepco, a KiK, a NORMAL e a TEDi iniciam a segunda. E, tal como então, não estão apenas a transformar o retalho. Estão a transformar a forma como os portugueses vivem o seu quotidiano económico. A próxima década do con- sumo em Portugal será escrita a partir deste novo equilíbrio: valor acessível, conveniência radical, descoberta emocional e racionalidade como identidade. No fim de contas, talvez a maior prova de que o culto da pe - chincha é hoje mais cultural do que económico esteja na forma como cada geração o vive. Para um Baby Boomer, a boa compra continua a ser sinónimo de prudência, de não “deitar dinheiro fora” e de sair da loja com a sensação reconfortante de dever cumprido, com o troco certo, o talão guardado e a tranquilidade de quem fez um bom negócio. Para um Millennial, é estratégia, uma maratona de comparações, reviews , apps e validações, com direito a orgulho silencioso ou partilhado. E para a Geração Z, pode ser um achado viral, um código promocional no TikTok que desaparece em 30 segundos ou um produto alinhado com valores, identidade e narrativa pessoal, que rende likes antes mesmo de render uso. Todos procuram valor, nenhum o define da mesma forma. E é nesse desencontro que o consumo con- temporâneo se reinventa todos os dias. Talvez por isso, mais do que perguntar onde está a próxima pechincha, valha a pena perguntar para quem é que ela é, afinal? Uma resposta que fica, desde já, prometida para um próximo capítulo desta história.
O preço já não explica tudo. De acordo com a McKinsey, os mercados mais propícios ao
crescimento do value retail não são os mais frágeis economicamente,
mas os mais maduros no seu pragmatismo económico, onde o consumidor desenvolveu uma cultura de racionalidade financeira consolidada
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