Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

A União Europeia é altamente dependente da importação de produtos como a soja e o milho para a alimentação animal, o que sustenta a sua produção de carne e lacticínios. A guerra na Ucrânia expôs de forma dramática esta vulnerabilidade, não só no que toca aos cereais, mas também aos fertilizantes, cuja produção é intensiva em gás natural, um recurso cujo preço disparou com o conflito

“O conceito de soberania do sector depende do equilíbrio da balança comercial agroalimentar” , aponta, por seu turno, Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal. “Vivemos num mercado aberto e os consumidores são soberanos. Pelo que se preferi - rem consumir, por exemplo, frutas tropicais, em vez da fruta da época que é produzida no nosso país, estão, naturalmen - te, no seu direito” , nota, acrescentando que “o conceito de soberania alimentar é relativo e, de qualquer modo, o risco de falta de alimentos para a população no quadro da União Europeia é uma questão que não se coloca.” Já António Alvarenga, professor associado convi- dado na NOVA SBE, e Maria Carvalho, teaching assis- tant na mesma instituição de ensino, lembram que, em Portugal, a soberania alimentar é parcial: o país destaca-se em produtos mediterrânicos (é o segundo maior produtor da União Europeia de azeite e amên- doa, além de forte exportador de vinho), mas muito dependente de culturas essenciais. Por exemplo, só cobriu cerca de 18% das suas necessidades de legu- minosas em 2024, importando a grande maioria. Por outras palavras, Portugal é robusto em culturas tradi- cionais, eventualmente não essenciais, mas altamen- te dependente do exterior, por exemplo, em cereais, leguminosas e proteína animal, refletindo alguma vulnerabilidade na autonomia alimentar nacional. “Na generalidade, podemos identificar algumas fragi - lidades estruturais dos sistemas alimentares dominantes na Europa: grande uso de energia, dependência de fertili - zantes minerais e outras matérias-primas externas, pou- cos agricultores e dependência de trabalho precário, baixa agrobiodiversidade, padrões alimentares desajustados e alto volume de desperdício” , resume Pedro Horta, policy officer na ZERO. O ambientalista realça que os siste- mas alimentares dominantes são muito intensos em energia, nas suas várias componentes. E que gran- de parte dessa energia – e dos materiais necessários para a sua distribuição e uso – dependem de gran- des volumes de importações. A utilização de energia

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