Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

Já o professor da NOVA Medical School conside- ra que a principal questão está no excesso legislati- vo e de burocracia, assim como na falta de alguma flexibilidade na implementação das medidas. É o caso de instrumentos disponíveis nalgumas regiões do mundo, mas que não são permitidos na União Europeia, ou são fortemente condicionados. Pedro Reis dá o exemplo do uso da somatropina bovina e uma maior liberdade no cultivo de culturas geneti- camente modificadas. Por outro lado, a agricultura é uma atividade fortemente dependente de energia, nomeadamen- te para tratores e outras máquinas pesadas, onde é muito difícil a transição para combustíveis pro- venientes de fontes renováveis. O professor apon- ta que, atualmente, já existe um nível elevado de investimento em energia solar para alguns consu- mos, como seja nos sistemas de rega e nas estufas, mas para as máquinas pesadas é muito mais com- plexa e difícil essa transição. Já no que se refere à retirada de mercado de al- guns pesticidas e a planeada redução de 50% no seu uso, Pedro Reis afirma que é indiscutível que sejam retirados produtos com riscos elevados comprova- dos para a saúde humana e dos ecossistemas, assim como seja obrigatória a proteção integrada para os agricultores profissionais e que sejam imple - mentadas medidas para um uso mais sustentável. No entanto, acrescenta, uma redução impondera- da das substâncias ativas disponíveis no mercado pode incrementar significativamente o surgimento de resistências, podendo conduzir a elevadas per- das de produção ou ao aumento das quantidades usadas de pesticidas autorizados. Mas o fator mais relevante, no seu entender, “foi a imposição de metas demasiado ambiciosas na estratégia Farm To Fork, tanto ao nível da redução do uso de pesticidas como de fertili - zantes azotados e fosfatados” , onde o incumprimento teria impacto muito significativo nalgumas produ - ções. “Esta ambição foi contraproducente, pois a estraté - gia Farm to Fork é muito mais, incluindo a redução para metade do desperdício alimentar e medidas de promoção de um comércio mundial mais justo e sustentável” , con- clui. No entanto, a implementação destas políticas é complexa e gera tensões. Os agricultores protestam contra o que consideram ser uma carga burocrática excessiva e uma concorrência desleal de produtos importados que não cumprem as mesmas regras. O enfraquecimento recente de algumas metas do Green Deal, em resposta a estes protestos, ilustra a dificuldade em conciliar a transição ecológica com a viabilidade económica do sector agrícola e a ga- rantia da autonomia produtiva. A conclusão das recentes políticas europeias é clara. Pelo menos para António Alvarenga e Maria Carvalho: “As metas climáticas da União Europeia, aliadas às regras agrícolas, tendem a tornar a agricul - tura mais sustentável, porém, potencialmente menos

Tendências científicas e tecnológicas

Agricultura de precisão e digitalização – sen- sores no solo, drones, imagens de satélite e inteligência artificial permitem monitorizar culturas e aplicar água/fertilizantes de forma pontual. Isso aumenta a produtividade (colhei- tas maiores com menos desperdício) e reduz a necessidade de inputs químicos; Novas culturas adaptadas – estão a ser in- troduzidas culturas alternativas resistentes ao clima árido, como sorgo ou amaranto, que consomem menos água. A rotação com le- guminosas também parece poder enriquecer os solos. Há ainda a expansão de sistemas de produção vertical e hidropónicos em ambiente controlado, garantindo produção local inde- pendente de sazonalidade; Variedades geneticamente melhoradas – a modificação genética (CRISPR), embora mui- to discutida, já está a ser utilizada para de- senvolver plantas resistentes a pragas, doen- ças e salinidade. Por exemplo, o laboratório InnovPlantProtect utiliza biotecnologia para tornar trigo, milho, arroz e fruteiras mais resis- tentes a bolores e vírus. Estas variedades do futuro prometem reduzir perdas e diminuir a necessidade de pesticidas; Agricultura regenerativa e biológica – téc- nicas agroecológicas, coberturas verdes e biofertilizantes (por exemplo, fixadores de ni- trogénio) estão a ganhar escala. A economia circular e a bioeconomia podem também levar a inovações, usando resíduos agrícolas para adubo ou energia e fechando, assim, ciclos de nutrientes.

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