Grande Consumo N.º 97

alimentar

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ração e consumo é muito baixo, o que evidencia uma forte dependência externa e uma elevada exposição à volatili - dade internacional e às novas regulamentações ambien - tais” , refere Marta Vasconcelos. Alguns dos fatores que limitam a autonomia agrí- cola no país prendem-se com características geográ- ficas, outros com capital humano e de inovação. Os professores da NOVA SBE lembram que Portugal enfrenta seca frequente e irregularidade pluviomé- trica no Alentejo e no Algarve. E que o aquecimento e eventos extremos (ondas de calor e tempestades) afetam negativamente os rendimentos agrários, so- bretudo no sul. O resultado? A disponibilidade hí- drica é crítica, exigindo irrigação intensiva em anos secos. Sendo que, com as alterações climáticas, a si- tuação tenderá a agravar-se. Por outro lado, é inequívoco que a pressão urba- na tem levado à redução da área cultivada, assim como a favor de utilizações para alimentação ani- mal e culturas permanentes industriais. Sem esque- cer que “solos erodíveis e pastoreio extensivo agravam o desafio” . E há ainda que contar com o inevitável en- velhecimento da população, que também abarca os agricultores, e a que se junta a falta de trabalhadores sazonais. Tudo isto “aumenta a pressão para mais me - canização e implementação de soluções automatizadas” . É certo que “o recurso a mão-de-obra imigrante tem sido uma solução, mas novas restrições à sua entrada poderão pôr em causa essa solução” , refere António Alvarenga. O professor acrescenta que já se verificam alguns esforços de digitalização no sector (sensores IoT, re- gas eficientes, sistemas de agricultura de precisão), mas ainda são sobretudo pontuais. Culturas como o feijão, o grão, a ervilha e a soja podem aumentar significativamente a produção na - cional de proteína vegetal e de fixação de nitrogénio no solo. Incentivar este cultivo aumentaria as maté- rias-primas para consumo humano e alimentação animal, reduzindo importações de soja e milho. Mas

produtiva se não houver implementação eficaz de con - trapartidas tecnológicas.” Portugal: um retrato de contrastes O caso português é um microcosmo das tensões e paradoxos europeus. O país detém uma balança comercial agroalimentar cronicamente deficitária, mas, ao mesmo tempo, exibe casos de enorme su- cesso em nichos de mercado de alto valor. É robusto e excedentário em produtos emblemáticos da dieta mediterrânica, mas perigosamente dependente em alimentos da base da pirâmide alimentar. Portugal afirma-se como uma potência em pro - dutos de alta qualidade. É o segundo maior produtor de azeite da União Europeia e um exportador de re- nome de vinhos. O sector das frutas e legumes tem demonstrado um dinamismo notável, com as expor- tações a atingirem 2,5 mil milhões de euros em 2024. O sucesso dos pequenos frutos, como a framboesa e o mirtilo, e o crescimento exponencial da fileira do azeite – que passou de um défice comercial para um saldo positivo de quase mil milhões de euros em 2024 – são exemplos de como a aposta na qualidade, na tecnologia e na orientação para os mercados ex- ternos pode gerar valor. O reverso da medalha é uma dependência exter- na preocupante em produtos essenciais. O grau de autoaprovisionamento em cereais é inferior a 20%, uma vulnerabilidade histórica que a recente Estra- tégia +Cereais do Governo tenta mitigar, com a am- biciosa meta de atingir 38% de produção nacional. A situação é igualmente crítica nas leguminosas secas (grão, feijão, ervilha), onde o autoaprovisiona- mento foi de apenas 18% em 2020, apesar de a área cultivada ter aumentado 40% na última década. Esta dependência estende-se às proteínas vegetais para rações, com importações massivas de soja e seus derivados, essenciais para a produção pecuária na- cional. “O grau de autoaprovisionamento de cereais para

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