GRANDE CONSUMO
É preciso tratar a alimentação como um “bem público” e remunerar os agricultores pelos “serviços de ecossistema que não são valorizados pelos mercados”
as recomendações vão (ainda) mais longe: no que toca a cereais, embora o rendimento por hectare seja limitado, investir em variedades adaptadas ao clima mediterrânico (por exemplo, trigos de outono mais resistentes ou milho irrigado) poderia aumen- tar a autossuficiência. O Governo definiu como meta Portugal produzir 38% dos cereais consumidos, mas tal objetivo tem-se revelado difícil, com o hori- zonte temporal a ter de ser alterado. É um objetivo ambicioso, quase duplicando a percentagem atual (17,9%). A expansão do trigo de inverno e a moderni- zação de arrozais são também possíveis prioridades. Já no que concerne à produção de hortícolas protegidos (tomate, alface) e frutas locais (citrinos, maçã resistente), a sua ampliação “poderia diminuir as importações. Em particular, a reconversão de terras para culturas de ciclo curto e rotatividade, nomeadamente no Alentejo e no Ribatejo, poderia suprir parte dos horto - frutícolas importados. ” Não menos importante, embora a olivicultura e a viticultura sejam já muito fortes no país, na opinião dos professores da NOVA SBE, são áreas que têm ain- da espaço para crescer via intensificação sustentá - vel, mantendo excedentes exportáveis. Finalmente, o desenvolvimento interno via bio- tecnologia de variedades de sementes adaptadas (biofortificação, tolerância à seca) pode atrair o in - vestimento e fortalecer a cadeia produtiva, particu- larmente em contexto de alterações climáticas. A questão do défice de aprovisionamento é mais complexa do que parece à primeira vista. É certo que há produtos – como o azeite – com grande sucesso. No entanto, Pedro Reis alerta para o facto de que a grande expansão dos novos olivais ocorreu em terras onde se produzia trigo, implicando uma redução da produção nacional deste bem agrícola. “A expansão das culturas com maior potencial de exportação implica uma maior pressão sobre os recursos hídricos nas regiões mais produtivas” , aponta, acrescentando que um dos nexos mais interessantes é a relação da agricultura com a alimentação. Face a isto, o professor afirma ta - xativamente que uma alimentação mais equilibrada, com maior consumo de produtos da época e optan- do por produtos nacionais, dá certamente um forte contributo para a redução da balança comercial. Futuro: entre a tecnologia e a política Perante um cenário de dependências estruturais e riscos emergentes, o reforço da soberania alimentar portuguesa e europeia exige uma ação concertada em múltiplas frentes, combinando inovação tecno- lógica, novas práticas agrícolas e políticas públicas coerentes. A inovação surge como uma resposta-chave para produzir mais e melhor com menos recursos. A agri- cultura de precisão, que utiliza ferramentas digitais como sensores, drones e inteligência artificial, per - mite uma aplicação cirúrgica da água, fertilizantes e pesticidas, reduzindo os custos e os impactos am-
84
Made with FlippingBook - professional solution for displaying marketing and sales documents online