Grande Consumo N.º 97

alimentar

N.97

Alcançar uma maior autonomia alimentar não significa fechar fronteiras ou ambicionar uma autos - suficiência irrealista. Significa, sim, fazer escolhas estratégicas: reduzir dependências críticas, valori- zar os recursos endógenos, apostar na inovação e na sustentabilidade e construir um sistema alimentar mais resiliente, equitativo e capaz de garantir ali- mentos saudáveis e de qualidade para todos, hoje e no futuro. Este é um desafio que convoca todos os elos da cadeia: desde os decisores políticos que desenham a PAC, aos cientistas que desenvolvem novas varie- dades, aos agricultores que trabalham a terra, à in- dústria e ao retalho que processam e distribuem e, finalmente, a cada consumidor, cujas escolhas diá - rias moldam, em última análise, o sistema que nos alimenta.

bientais. A biotecnologia e as novas técnicas genó- micas (NTG), como a CRISPR, abrem a porta ao de- senvolvimento mais rápido de variedades de plantas mais resistentes a pragas e doenças e à seca, um fa- tor crítico no contexto das alterações climáticas. Pe- dro Reis salienta o potencial destas ferramentas para “obter, de forma mais rápida e precisa, plantas menos sus- cetíveis a stresses abióticos, como o hídrico.” O professor da NOVA Medical School vai mais longe e afirma que “a tecnologia digital está a abrir muitas portas.” E dá o exemplo de “armadilhas inteli- gentes”, que permitem contar o número de insetos de uma determinada praga e, depois, determinar qual o momento certo para se fazer um tratamento fitossanitário. A que se junta a robotização, que está a ser puxada pela produção para colmatar a falta de mão-de-obra, existindo já testes de máquinas para a colheita de pequenos frutos. No entanto, alerta que, neste leque de inovações, “é preciso ir para além das ferramentas digitais, automa- ção e robotização e melhoramento de plantas, para referir a investigação e inovação em práticas baseadas no funciona - mento dos ecossistemas, de forma a ir substituindo produ- tos de síntese por processos naturais (por exemplo, bactérias simbiontes e micorrizas para reduzir ou dispensar a aplica- ção de adubos, o uso de insetos auxiliares ou de luta biotéc - nica para reduzir ou substituir o uso de pesticidas).” Para o professor da NOVA Medical School, este conhecimen- to científico e a sua aplicação na produção agrícola é cada vez mais relevante, porque permite reduzir o uso de produtos de síntese, com todas as vantagens inerentes, mas também porque melhora a saúde do solo e de todo o ecossistema, aumentando o potencial produtivo e contribuindo para uma maior produção de bens públicos, como o sequestro de carbono, a melhoria do ciclo hidrológico e dos nutrientes. Paralelamente, ganham força as práticas basea- das na ecologia. A agricultura regenerativa, a rota- ção com leguminosas, o uso de coberturas e a aposta em biofertilizantes e controlo biológico de pragas são soluções que melhoram a saúde do solo, aumen- tam a sua capacidade de reter água e carbono e redu- zem a dependência de produtos de síntese química. Como defende o ambientalista Pedro Horta, é preci- so tratar a alimentação como um “bem público” e re- munerar os agricultores pelos “serviços de ecossistema que não são valorizados pelos mercados.” Desafio coletivo A soberania alimentar deixou de ser uma bandeira de movimentos ativistas para se tornar um pilar cen- tral da estratégia e da resiliência da Europa. As crises recentes desnudaram as fragilidades de um sistema alimentar globalizado, excessivamente dependente de longas cadeias de abastecimento, de energia fós- sil e de um número limitado de fontes de matérias- -primas. Para Portugal, com as suas vulnerabilida- des estruturais, mas também com os seus enormes potenciais, o desafio é particularmente agudo.

Medidas políticas e estratégicas

A tecnologia, por si só, não é suficiente. São necessárias políticas públicas que criem um ambiente favorável à transição. Os especia- listas consultados apontam um conjunto de medidas cruciais: Estratégias de fileira – implementar planos focados em sectores críticos, como a Estraté- gia +Cereais, e promover a produção de legu- minosas para reduzir a dependência proteica; Gestão da água – investir maciçamente em infraestruturas hídricas eficientes, como o re- gadio de precisão, e reutilizar águas tratadas, conforme previsto na Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (ENAAC 2030); Reforço das cadeias curtas – apoiar a logísti- ca local e os mercados de proximidade e criar regimes de compras públicas que favoreçam os produtores nacionais e locais, garantindo escoamento e preços justos; Contratos e transparência – incentivar con- tratos de programa entre produção, indústria e retalho, com metas claras de incorporação de produtos nacionais, e aumentar a transparên- cia na rotulagem sobre a origem dos produtos; Gestão de risco – generalizar o acesso a se- guros de colheita e climáticos para proteger os agricultores da crescente volatilidade da produção.

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