Grande Consumo N.º 97

alimentar

N.97

Num sistema alimentar cada vez mais concentra- do, os grandes grupos de retalho desempenham um papel decisivo na formatação da produção e do con- sumo. Conscientes da crescente procura dos consu- midores por produtos locais e sustentáveis, e pres- sionados pela instabilidade das cadeias globais, os principais retalhistas em Portugal têm vindo a re- forçar a sua aposta no sourcing nacional. Os números são expressivos. A Auchan investiu 70 milhões de euros em compras diretas a produ- tores locais, nos últimos seis anos, com um cresci- mento de 150% neste período. O Continente afirma que mais de 50% das suas compras são de origem nacional, percentagem que ultrapassa os 70% em ca- tegorias como o talho e a charcutaria. O Lidl, por sua vez, adquire cerca de 50% dos artigos da sua marca própria a fornecedores portugueses e tem sido um importante canal de exportação, facilitando a venda de 773 milhões de euros em produtos nacionais para outros mercados europeus, na última década. Parcerias que estruturam a produção Estas estratégias não se limitam, contudo, à com- pra. Passam ainda pela criação de parcerias de lon- go prazo, planeamento conjunto de colheitas, apoio técnico e promoção da inovação. O Clube de Pro- dutores Continente, por exemplo, oferece formação e investe em projetos de agricultura regenerativa, com o retalhista a oferecer suporte técnico-cien- tífico e formação. Adicionalmente, como refere Ondina Afonso, diretora de qualidade e R&D do Continente, “promovemos marcas próprias com origem nacional e campanhas que valorizam o produto local, porque acreditamos que contar a história de cada produ- to faz a diferença.” A explicação é simples. “O equilíbrio faz-se com parcerias sólidas e de longo prazo” , afirma a responsá - vel, que acrescenta que o Continente, em conjunto com os produtores, ajusta os volumes à sazonalida- de e investe em eficiência para que o preço justo não comprometa a sustentabilidade. Além disso, o retalhista valoriza os subprodutos através de ini- ciativas como a Feira do Desperdício, em que os subprodutos de um produtor são usados como ma- téria-prima, fertilizante ou fonte de energia de ou- tros, e o desenvolvimento de produtos de economia circular, como o croissant de ovos moles e o vinagre de maçã de Alcobaça, que transformam excedentes O retalho alimentar tornou-se um dos principais decisores do sistema agroalimentar. Entre a pres- são do preço, a exigência de sustentabilidade e a necessidade de cadeias de abastecimento resilien- tes, os grandes distribuidores em Portugal estão a redefinir o sourcing nacional. Mas até que ponto são motor de autonomia produtiva ou guardiões de margens num mercado dominado pelo consu- midor sensível ao preço?

em produtos diferenciadores. “É uma equação com - plexa, mas acreditamos que só assim conseguimos garan- tir qualidade, acessibilidade e respeito pelo planeta.” A Auchan, por seu lado, destaca as parcerias com empreendedores que reinventam produtos tradicio- nais, como a Carob World, que transformou a alfar- roba em tabletes originais, ou a Salina Greens, que produz sal vegetal a partir de halófitas cultivadas em ambiente natural em Alcochete. O retalhista refere ainda outros fornecedores, como a Wildboost, da zona da Venda do Pinheiro, que produz kombucha artesanal, a I’m Nat, um produtor de manteigas de frutos secos do Algarve, ou a Nanfunghi, um produ- tor de cogumelos a partir de borras de café. Escala que exporta Portugal O Lidl, através da sua escala internacional, dá aos produtores portugueses, muitos deles pequenas e médias empresas, acesso a mercados que, de outra forma, seriam inalcançáveis. Como refere Alexan- dra Borges, diretora-geral de compras, os investi- mentos feitos pelo retalhista incluem o trabalho di- reto com produtores de norte a sul do país, o apoio à modernização dos processos produtivos e o acom- panhamento técnico contínuo. A executiva aponta ainda todo o trabalho feito no que concerne à exportação de produtos portu- gueses, “dando escala à produção local e abrindo novos mercados aos nossos fornecedores.” A iniciativa Da Mi- nha Terra, lançada em 2020, é também mencionada como um exemplo do apoio do Lidl à produção por- tuguesa, sendo que, afirma Alexandra Borges, “cum- pre o duplo objetivo de impulsionar a economia nacional e regional, promovendo a qualidade dos produtos locais.” Mais do que um simples intermediário entre produção e consumo, o retalho é hoje um arquiteto do sistema alimentar. A forma como estrutura contratos, define políticas de origem, investe em exportação e comunica valor ao consumidor poderá determinar se Portugal reforça a sua autonomia produtiva ou permanece dependente de cadeias globais vulneráveis

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