Grande Consumo N.º 97

GRANDE CONSUMO

Num sistema alimentar cada vez mais concentrado, os grandes grupos de retalho desempenham um papel decisivo na formatação da produção e do consumo. Conscientes da crescente procura dos consumidores por produtos locais e sustentáveis, e pressionados pela instabilidade das cadeias globais, os principais retalhistas em Portugal têm vindo a reforçar a sua aposta no sourcing nacional

Hoje, questões como as perturbações nas ca- deias globais, derivadas de desafios geopolíticos, como a invasão da Ucrânia, levaram a alterações estratégicas no aprovisionamento. O que obriga a novas medidas por parte dos retalhistas. “A instabi- lidade global acelerou a nossa aposta na produção nacio - nal” , constata Ondina Afonso, que acrescenta que a relação próxima que o Continente mantém com os produtores permitiu “garantir o abastecimento mesmo em momentos críticos, reforçando a confiança e a previsi - bilidade.” A que se junta o investimento em práticas sustentáveis, por forma a mitigar os riscos climá- ticos. “Estas mudanças tornaram-nos mais resilientes e reforçaram uma convicção: as cadeias curtas são o futu - ro” , assegura. Visão partilhada pela Auchan, que refere que as recentes perturbações nas cadeias de abasteci- mento globais – desde conflitos geopolíticos e cri - ses energéticas a eventos climáticos extremos e desafios logísticos – reforçaram e aceleraram a sua estratégia de aprovisionamento nacional e local. “Estas contingências evidenciaram a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento longas e complexas” , indi- ca fonte do retalhista, que refere que, como respos- ta, intensificou o foco na redução da dependência de mercados distantes, diversificando os pontos de sourcing e priorizando a proximidade, acelerando os esforços para identificar e integrar mais produ - tores portugueses, garantindo uma maior autono- mia no abastecimento. Adicionalmente, a Auchan apostou na imple- mentação de ferramentas mais robustas de análise de risco e cenários para antecipar potenciais per- turbações. O objetivo passa por conseguir cadeias de transporte mais curtas e eficientes para minimi - zar o impacto do aumento dos custos energéticos e da escassez de recursos. O retalho ocupa hoje uma posição determinan- te na equação da soberania alimentar. Pela escala, capacidade logística e poder contratual, pode ace- lerar a transição para cadeias mais curtas, previ- síveis e sustentáveis, garantindo o escoamento, investimento e inovação aos produtores nacionais. Mas essa influência traz também responsabilidade. Num contexto de inflação alimentar, volatilidade geopolítica e pressão ambiental, a decisão entre privilegiar preço imediato ou resiliência estrutural tornou-se estratégica. Mais do que um simples intermediário entre pro- dução e consumo, o retalho é hoje um arquiteto do sistema alimentar. A forma como estrutura contra- tos, define políticas de origem, investe em exporta - ção e comunica valor ao consumidor poderá deter- minar se Portugal reforça a sua autonomia produtiva ou permanece dependente de cadeias globais vulne- ráveis. No equilíbrio entre competitividade e com- promisso está o verdadeiro teste à sua liderança.

Iniciativas e investimentos em produção nacional

Auchan - 70 milhões de euros em compras diretas a produtores locais nos últimos seis anos, crescimento de 150% nas compras lo- cais, rede de mais de 180 produtores num raio de 50 quilómetros das lojas; Continente – mais 50% das compras com ori- gem nacional (acima de 70% em talho e char- cutaria), Clube de Produtores Continente com apoio técnico-científico, projetos de economia circular; Lidl – cerca de 50% dos artigos de marca própria de fornecedores portugueses, 773 milhões de euros em exportações facilitadas nos últimos dez anos, iniciativa Da Minha Terra para pequenos produtores.

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