Grande Consumo N.º 97

alimentar

N.97

Os cereais – trigo, milho, cevada e arroz – consti- tuem a base da alimentação humana e animal em toda a Europa. Portugal, apesar da sua longa tra- dição agrícola, é profundamente dependente de importações. O autoaprovisionamento em cereais ronda os 17,9%, uma percentagem alarmante que o Governo português tenta reverter através da Es- tratégia +Cereais, que estabelece como meta atingir 38% de produção nacional. Esta ambição, embora justificada, enfrenta obs - táculos significativos: o clima mediterrânico por - tuguês, com invernos húmidos e verões secos, não é ideal para cereais de inverno de elevado rendi- mento e a competição com culturas de maior valor acrescentado, como o azeite e a vinha, está a pres- sionar a reconversão de terras. A guerra na Ucrânia, um dos maiores produto- res mundiais de cereais, demonstrou dramatica- mente a fragilidade desta dependência. O bloqueio dos portos do Mar Negro causou uma crise de abas- tecimento global, com os preços a dispararem e a disponibilidade a ficar comprometida. Para a Euro - pa, a lição foi clara: a segurança de abastecimen- to em cereais é uma questão de defesa nacional e de soberania alimentar. As soluções passam pelo investimento em variedades adaptadas ao clima português, na modernização de infraestruturas de armazenamento e processamento e na criação de incentivos para os agricultores. Leguminosas: tesouro esquecido Já as leguminosas – grão-de-bico, feijão, ervilha e fava – são um dos grandes paradoxos da agricultura portuguesa e europeia. Esquecidas durante déca- das em favor de monoculturas de cereais e proteína animal, estas culturas estão a ganhar importância renovada, tanto por razões ambientais como nutri- cionais. Do ponto de vista ambiental, as leguminosas são ouro puro. Através de uma simbiose com as bacté- rias no solo, fixam o azoto atmosférico, enrique - cendo-o naturalmente e reduzindo drasticamente a necessidade de fertilizantes sintéticos. A rotação de culturas com leguminosas melhora a estrutura do solo, aumenta a sua capacidade de retenção de água e carbono e promove a biodiversidade. Estas práticas são precisamente o que o Green Deal eu- ropeu procura incentivar através dos eco-regimes. Cereais, leguminosas, proteína animal e hortofru- tícolas estão no centro do debate sobre a soberania alimentar, mas também no epicentro das decisões estratégicas de sourcing e abastecimento. Entre de- pendências externas críticas e oportunidades de valorização da produção nacional, o equilíbrio en - tre segurança, sustentabilidade e competitividade tornou-se um dos maiores desafios para produto - res, indústria e retalho em Portugal.

Do ponto de vista nutricional, as leguminosas são uma fonte excelente de proteína vegetal, fibra e micronutrientes. Numa altura em que a Europa procura reduzir o seu consumo de carne e em que a população mundial cresce, aumentar a produção e o consumo de leguminosas é uma estratégia de sustentabilidade alimentar e ambiental. Portugal autoaprovisionava apenas 18% das suas necessidades de leguminosas secas em 2020. A área cultivada aumentou 40% na última década, um si- nal positivo, mas ainda insuficiente. A dependência de importações, sobretudo de soja e farinha de soja para rações, é massiva. As oportunidades são signi- ficativas: a criação de contratos de programa entre retalho, indústria e produtores, com metas claras de incorporação de leguminosas nacionais em ca- tegorias como sopas, enlatados e refeições prontas, poderia dar escala e previsibilidade aos produtores. Proteína animal: dependência silenciosa Também a produção de carne e lacticínios em Por- tugal e na Europa depende fundamentalmente de importações de alimentos para animais, nomeada- mente soja e milho. A União Europeia importa cer- ca de 60% da soja que consome, maioritariamente do Brasil, criando uma dependência que tem impli- cações não apenas económicas, mas também am- bientais e sociais. Esta dependência coloca a produção pecuária europeia numa posição vulnerável. Qualquer dis- rupção nas cadeias de abastecimento global, como a que ocorreu durante a pandemia e a guerra na Ucrâ- nia, afeta imediatamente os preços das rações e, con- sequentemente, a rentabilidade dos produtores. Ao contrário dos cereais e das leguminosas, Portugal tem demonstrado capacidade competitiva em frutas e legumes frescos. As exportações atingem 2,5 mil milhões de euros anuais e o país é conhecido pela qualidade dos seus produtos

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