GRANDE CONSUMO
Além disso, a pressão crescente para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, que a pe- cuária intensiva produz em quantidade significa - tiva, coloca o sector sob escrutínio regulatório. As soluções incluem a transição para sistemas de pro- dução menos intensivos, a redução do tamanho dos rebanhos em algumas regiões e a aposta em proteí- nas alternativas, como as leguminosas e os produ- tos de origem marinha. Frutas, legumes e hortícolas: sucesso relativo Ao contrário dos cereais e das leguminosas, Portu- gal tem demonstrado capacidade competitiva em frutas e legumes frescos. As exportações atingem 2,5 mil milhões de euros anuais e o país é conheci- do pela qualidade dos seus produtos. No entanto, há vulnerabilidades. A sazonalida- de e as condições climáticas adversas (secas, gea- das tardias) podem comprometer a produção. A procura do consumidor por produtos fora de época obriga a importações de variedades tropicais e de produtos de outras regiões. As oportunidades residem na diversificação de culturas, na adoção de técnicas de produção prote- gida (estufas e sistemas hidropónicos), que permi- tem estender a sazonalidade, e no desenvolvimen- to de variedades locais mais resistentes ao clima. A aposta em produtos de qualidade diferenciada, com certificações de sustentabilidade e origem, permite capturar prémios de preço nos mercados mais exigentes. A guerra na Ucrânia, um dos maiores produtores mundiais de cereais, demonstrou dramaticamente a fragilidade desta dependência. O bloqueio dos portos do Mar Negro causou uma crise de abastecimento global, com os preços a dispararem e a disponibilidade a ficar comprometida. Para a Europa, a lição foi clara: a segurança de abastecimento em cereais é uma questão de defesa nacional e de soberania alimentar
Clima e preços: a pressão que vem de fora
Os eventos climáticos extremos deixaram de ser um risco abstrato para se tornarem um fator económico mensurável no sistema ali- mentar europeu. Segundo um estudo publi- cado na European Economic Review, as on- das de calor, secas e inundações do verão de 2025 provocaram 43 mil milhões de euros em prejuízos imediatos na economia europeia, podendo esse valor atingir 126 mil milhões de euros até 2029, quando considerados os efeitos macroeconómicos prolongados. Es- panha, França e Itália foram os países mais afetados, com perdas superiores a dez mil milhões de euros cada. Mas o impacto não se ficou pelos danos físi- cos. A escassez de produtos agrícolas tradu- ziu-se em inflação alimentar e volatilidade nos mercados. Um segundo estudo internacio- nal identificou 16 casos em 18 países (2022- 2024) onde fenómenos extremos estiveram diretamente associados a picos de preços alimentares. Entre os exemplos: o azeite au- mentou 50% na União Europeia após a seca no sul da Europa, o cacau subiu quase 300% após as ondas de calor na Costa do Marfim e no Gana, o café Robusta aumentou 100% na sequência do calor recorde no Vietname e, na Austrália, o preço da alface disparou 300% após as inundações. Os investigadores alertam que o mundo já aqueceu cerca de 1,3°C face à era pré-indus- trial e que a trajetória atual aponta para cerca de 3°C até 2100, o que agravará a frequência e intensidade destes choques climáticos. De facto, a volatilidade climática está a tor- nar-se um fator estrutural na formação dos preços alimentares. Num contexto em que o consumidor permanece altamente sensível a este fator, o reforço da produção nacional e das cadeias curtas pode não ser apenas uma escolha de proximidade, mas uma ferramen- ta de resiliência económica.
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