GRANDE CONSUMO
alimentar Quando o azeite deixa de ser apenas azeite
texto CARINA RODRIGUES fotografia SHUTTERSTOCK
O dia ainda mal nasceu no Alentejo quando o som das primeiras máquinas atravessa o olival. Entre filas perfeitamente alinhadas de oliveiras, o aroma verde da azeitona recém-apanhada mistura-se com o frio da manhã. Há algo de ancestral neste momento, embora a apanha já não se faça como antigamente. Em vez das varas e das redes estendidas no chão, as máquinas modernas sacodem os ramos com preci- são mecânica e recolhem as azeitonas em poucos minutos. À primeira vista, a paisagem continua a ser a mes- ma de sempre: terra, árvores e horizonte aberto. Mas a forma de produzir azeite mudou profundamente. Sensores monitorizam a humidade do solo, estações meteorológicas recolhem dados em tempo real e sistemas digitais permitem ajustar a rega com uma precisão quase científica. A olivicultura portuguesa entrou definitivamente na era da agricultura de pre - cisão, uma transformação que começou há cerca de duas décadas, impulsionada por investimentos em regadio e pela modernização dos sistemas agrícolas. E que alterou não apenas a escala da produção, mas também a forma como o país olha para este produto.
Durante décadas, o azeite português foi sobretudo uma história de volume. O país modernizou oli - vais, investiu em regadio, mecanizou a colheita e construiu lagares tecnologicamente avançados. O resultado foi uma expansão produtiva que co- locou Portugal entre os protagonistas da olivicul- tura europeia. Mas a história que agora começa a escrever-se é diferente. Num mercado global mais competitivo, com consumidores mais informados e uma pressão crescente das alterações climáti - cas, o sector entra numa nova fase de maturidade. Produzir mais já não é suficiente. O desafio passa, agora, por produzir melhor, comunicar melhor e capturar mais valor.
Produzir muito foi o primeiro passo. Produzir melhor é o próximo
O Alentejo tornou-se o epicentro dessa mudança. Hoje, a região representa cerca de 85% a 90% da pro- dução nacional de azeite, consolidando-se como ver- dadeiro motor do sector.
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