Grande Consumo N.º 97

alimentar

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E um dos grandes trunfos do azeite português re- side, precisamente, na diversidade varietal. Portugal possui dezenas de variedades autóctones de oliveira, muitas das quais únicas no mundo. Cobrançosa, Ga- lega, Cordovil, Verdeal ou Madural são apenas algu- mas delas e cada uma produz azeites com perfis sen - soriais distintos, desde notas herbáceas e picantes até aromas mais suaves e frutados. Essa diversidade permite criar produtos diferenciados e reforçar a li- gação entre o azeite e o território. Entre o granel e o valor Portugal conta hoje com mais de 400 empresas ex- portadoras de azeite, responsáveis por vendas exter- nas superiores a mil milhões de euros anuais. Entre os principais destinos destacam-se Espanha, Brasil e Itália, que concentram a maior parte das exporta- ções portuguesas. Mas o azeite português continua a viver uma rea- lidade dual. Uma parte significativa da produção é exportada a granel, sobretudo para Espanha, onde é posteriormente reembalada. Ao mesmo tempo, cresce a exportação de azeite engarrafado e de maior valor acrescentado para mercados como o Brasil, os Estados Unidos ou o Japão. Esta dualidade reflete duas estratégias distintas que coexistem no sector: uma orientada para volume e competitividade in- dustrial, outra focada na diferenciação e na constru- ção de marca. O desafio, para os próximos anos, será equilibrar estas duas dimensões. Uma coisa é certa: a oliveira é uma árvore pacien- te. Cresce devagar, resiste ao tempo, adapta-se às di- ficuldades e continua a dar fruto, geração após gera - ção. Talvez por isso seja uma metáfora tão perfeita para o próprio sector do azeite. Portugal demorou décadas a construir a sua posição neste mercado, investiu em tecnologia, modernizou olivais, criou lagares de última geração e conquistou espaço no comércio internacional. Agora começa a fase mais exigente: transformar essa capacidade produtiva em reputação, identidade e valor. E, tal como acontece com os grandes azeites, a identidade de um sector constrói-se lentamente. A tecnologia que está a mudar o campo Ora, se a valorização do azeite passa cada vez mais pela identidade do produto, assenta também na ino- vação tecnológica e construção de marcas fortes. A narrativa continua ligada à tradição, mas a realidade da produção é outra e, hoje, é profundamente tec- nológica. Nos olivais modernos, a gestão agrícola é cada vez mais baseada em dados. Sensores instalados no solo monitorizam a humidade e a atividade das plantas. Imagens de satélite permitem acompanhar o desen- volvimento das árvores. Sistemas digitais analisam as previsões meteorológicas e ajudam a determinar o momento ideal para a colheita. Na Sovena, casa- -mãe da Oliveira da Serra, essa transformação é par-

Poucos projetos agrícolas tiveram um impacto tão profundo como o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva. A criação do maior lago artificial da Europa transformou profundamente a paisagem agrícola do Alentejo e permitiu a expansão de culturas intensivas e super intensivas, entre as quais o olival. Hoje, o Alentejo representa entre 85% a 90% da produção nacional de azeite

A diversidade que distingue Portugal Esta transformação aproxima o azeite do percurso que o vinho português fez nas últimas décadas. Tal como aconteceu com este, o consumidor começa a valorizar o terroir , as variedades e a singularidade do produto. “O caminho feito pelo vinho português é um exemplo inspirador” , confirma o Esporão. “A gastro- nomia é um dos maiores ativos culturais de Portugal e o azeite pode, e deve, ocupar esse território com mais força. Acreditamos que há todas as condições para construir um posicionamento internacional sólido” , prossegue a mes- ma fonte. O Esporão ocupa um lugar particular entre os produtores portugueses que têm contribuído para a valorização do azeite como produto gastronómico e identitário. Conhecida internacionalmente pelo vinho, a empresa alentejana foi também uma das pioneiras na construção de uma abordagem mais integrada ao azeite, combinando agricultura, sus- tentabilidade, gastronomia e marca. “Cada vez mais consumidores procuram azeites com personalidade, que expressem o território e as variedades utilizadas” , co- menta, descrevendo uma valorização da origem e da identidade sensorial que abre espaço para novas categorias dentro do próprio mercado do azeite. Mo- novarietais, colheitas especiais, azeites biológicos, produções limitadas e denominações de origem tor- nam-se ferramentas importantes para reforçar a sin- gularidade dos produtos.

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