E-book Eu vejo você

Olhando para a minha própria gestação, encontrei um filho que foi o quarto após três abortos. Antes de mim, vieram outros que não passaram do quinto mês, que morreram e geraram uma ex- pectativa muito grande. A preocupação era de que essa minha ges - tação também não fosse para frente. Eu poderia morrer também. No sétimo mês de gestação, eu parei de mexer. E não fui reti - rado porque não havia um hospital com incubadora que pudesse me receber. Então, o risco teve que ser assumido. E isso, aquele bebê ali dentro interpretou como uma sensação de vida curta , de risco de vida constante. Essa interpretação me fez, durante muitos anos da minha vida, viver com ansiedade, medo do futuro , atropelando fases, correndo para fazer tudo, como se eu tivesse pouca vida, pouco tempo . Du- rante muitos anos, não havia desfrute, apenas sobrevivência e cor- rida. Viver como se fosse sempre o último dia. Fazer como se tudo estivesse prestes a acabar. Hoje, olhando para esse passado e ressignificando essas in - terpretações, entendendo que não havia nada que o bebê pudesse fazer para viver, além de estar vivo, ele não tinha o controle da gestação , consigo realmente sentir a vida. Sentir o cheiro das coi - sas. Desfrutar de um café. Aproveitar um tempo de qualidade com a minha família. Entendendo que há muita vida para ser vivida. Que há muito o que construir e experimentar. Aquele mesmo bebê que interpretou a vida como curta estava dentro de um relacionamento familiar conturbado. Um casamento com muitos problemas. Rejeição da mãe. Rejeição do pai. A mãe que queria uma menina. O pai que tinha medo de ser pai. E esse bebê ainda vivia dentro de um contexto de problemas de saúde . A minha mãe tinha crises epiléticas . Ela caía, batia a bar - riga na parede. E isso fazia com que aquele bebê sentisse dor, im - pactos físicos e emocionais.

65

Made with FlippingBook - Share PDF online