Somos obrigados a concluir que nossa responsabilidade ética é paradoxal: somos responsáveis pelo impacto em nossos pacientes do compartilhamento que fazemos de seu material clínico com colegas, ainda que não possamos prever ou controlar integralmente os efeitos desse impacto, nem identificar plenamente os aspectos que possam ter escapado à nossa percepção. Nossos compromissos éticos são divididos entre admitir que precisamos compartilhar material clínico como parte do treinamento e avanço de nosso trabalho e admitir que o próprio compartilhamento é uma ameaça ao nosso compromisso sagrado com a confidencialidade de nossos pacientes.
A questão da captura digital
A complexidade de publicar relatos clínicos é ampliada pela ubiquidade da captura digital de muito do que é escrito. Pacientes podem encontrar nossos artigos, mesmo quando escritos para revistas acadêmicas obscuras. Qualquer autor que publique material clínico hoje em dia deve assumir que seus pacientes irão ler suas palavras, dado que qualquer paciente pode, de fato, fazê-lo. A presença de material clínico nos sites de revistas psicanalíticas online é uma causa de preocupação particular. Cada vez mais, versões digitais de artigos ficam disponíveis ao mesmo tempo que a edição impressa ou são republicadas eletronicamente mais tarde. A proteção e o controle deste material são, frequentemente, bastante inadequados, enquanto seu alcance é global e ilimitado. Além disso, algumas revistas acadêmicas publicam artigos enviados em seus sites antes de haver qualquer oportunidade de assegurar a proteção da confidencialidade do paciente. Isto é igualmente preocupante dado o alcance global e ilimitado dos artigos.
Conferências frequentemente fazem anúncios online, aumentando o risco de pacientes identificarem a si mesmos na descrição de um caso.
Administradores de revistas acadêmicas online e sites devem estar atentos ao seu compromisso ético com a proteção da confidencialidade dos pacientes.
Questões quanto ao disfarce; Questões quanto ao consentimento informado
Em uma pesquisa com editores de revistas acadêmicas, os entrevistados dividiram opiniões sobre como lidar com a publicação de material clínico. Alguns entrevistados consideram consentimento uma questão espinhosa com consequências insolúveis e desconhecidas para o paciente, devendo, pois, ser evitado. Eles consideram consentimento informado antiético devido à nossa inabilidade de detectar completamente ou prever corretamente as reações de um paciente quando informações são compartilhadas, além do risco de compreensões de après-coup que não poderiam ter sido antecipadas no momento em que o consentimento foi requisitado. Eles questionaram se consentimento informado é verdadeiramente possível tendo em conta as influências desconhecidas das dinâmicas de transferência. Pode um paciente realmente se sentir livre para dizer “não” a seu analista? Enquanto em outras profissões o requerimento ético do consentimento informado é relativamente simples, em psicanálise, ele é tudo menos isto. O objeto da pesquisa analítica, o inconsciente, complica qualquer noção de consentimento informado dentro do campo transferencial. Nem analisando, nem analista podem estar imediatamente atentos a todos os motivos inconscientes que conduzem à permissão para o compartilhamento de material clínico, e nenhum deles pode prever os futuros impactos après-coup de tal decisão. Há casos documentados em
Made with FlippingBook Digital Proposal Creator