pérolas da literatura infantil, que as famílias podiam levar para casa e ler aos mais pequenos. Essa ideia teve tanta aceitação que acabou por ser implementada em todas as outras bibliotecas do município e recebeu um prémio de boas práticas que lhes rendeu uma promoção, alguma notoriedade e muito orgulho e satisfação. Ser bibliotecária era o sonho de uma vida. Sentia-se feliz e realizada na sua função. Achava que não podia haver local de maior conforto do que estar entre livros e pensava muitas vezes que o serviço público justificava todas as escolhas que tinha feito ao longo da vida., Todas as vidas que tocava e que melhorava com a sugestão de obras, era uma satisfação incrível que sentia, mesmo após muitos anos de actividade ininterrupta. O cansaço que sentia pelas inúmeras oras de trabalho seguidas, era reparado pelo bem que imaginava que os seus amados livros produziam. Por muito que se esforçasse, não conseguia imaginar função mais nobre do que esta! Marta Russo, Sociedade Portuguesa de Psicanálise O dia começou com uma chuva pesada. Eu não quis falar. A minha mãe começou novamente com aquela conversa chata de que eu estou na idade do armário e que sou insuportável. Já não a posso ouvir mais. Saí de casa sem chapéu de chuva, de ténis e sem casaco. Cheguei à escola encharcada. Não me importei. Ou talvez sim. Continuei sem falar. Nem bom dia, nem nada. Não quero falar, não posso falar, talvez não saiba como falar. Fico sempre na última fila de carteiras e sei que me acham estranha e esquisita. Mas eu vou continuar calada. O professor de Geografia pergunta em que hemisfério estamos: "Bia, em que hemisfério estamos?" Eu estou no hemisfério do silêncio, da não-palavra, portanto, não vais levar resposta minha. Fico calada. Passo na entrada da escola, há lá trabalhos expostos, sobre handicaps das pessoas: deficiências motoras, doenças congénitas, alterações dos sentidos e vejo lá uma coisa. Sabiam que quem não fala, é porque não ouve? Os surdos não falam, porque nunca ouviram falar. Estarei eu surda também? Mas eu ouvi a minha mãe hoje de manhã. E ouvi a chuva pesada e o professor de Geografia. Eu acho que eu quero é ouvir outra coisas, para poder falar outras coisas. "Bia, gosto das tuas calças". "Obrigada" - respondi à Ana. A Ana era estranha e esquisita. Não falava. Falámos as duas.
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