A atenção dela foi atraída para um pedaço de papel sobre a escrivaninha. Sem linhas, em branco. Ela não lembrava de ter colocado ali. Talvez na noite anterior, quando abriu a última caixa da mudança, e achou uma coleção de papéis coloridos que tinha sobrado da festa da neta. No final da pilha, tinha um pedaço de papel amarelo, cortado ao meio, um projeto não começado ou uma sobra esquecida. A festa era para fazer cartões decorados, pintados à mão. O papel amarelo e uma promessa. Sentou-se na escrivaninha que ela tinha colocado em frente à janela da sala. O mar ao longe repetia ondas. A folha, ainda vazia, suas mãos entrelaçam a caneta azul, e as palavras não vinham. Olhou em torno. O apartamento ja parecia seu. No canto da escrivaninha, colocou sua orchídea, sem flores. Notou a folhinha verde, pequena, que estava a nascer. Acariciou de leve a planta, dividindo com ela esse momento de incerteza. Voltou-se para o amarelo da folha, escreveu: Ontem, mudei-me para a praia. Her attention was drawn to a piece of paper on the desk. Unlined, blank. She didn’t remember placing it there. Maybe the night before, when she opened the last box from the move and found a collection of colorful papers left over from her granddaughter’s party. At the bottom of the pile, there was a yellow sheet, cut in half—an unfinished project or a forgotten scrap. The party was centered around making decorated, hand-painted cards. The yellow paper was a promise. She sat at the desk she had placed in front of the living room window. In the distance, the sea repeated its waves. The sheet, still blank. Her hands wrapped around a blue pen, but the words wouldn’t come. She looked around. The apartment already felt like hers. In the corner of the desk, she had placed her orchid, flowerless. She noticed a small green leaf beginning to grow. She gently stroked the plant, sharing that moment of uncertainty with it. She turned back to the yellow page and wrote: "Yesterday, I moved to the beach."
Inês Ataíde Gomes, Sociedade Portuguesa de Psicanálise
No dia primeiro de Abril um senhora idosa e baixa mudou-se para o apartamento ao lado. Vinha com as suas malas, atarefada, e atras dela um gato malhado, que se enrodilhava no seus pés. Juntos numa dança sincronizada, em que os passos de um não atrapalhavam os passos do outro.
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