A princípio, ela pensou que fosse tudo um mal-entendido.
Alexandra Coimbra, Sociedade Portuguesa de Psicanálise A princípio, ela pensou que fosse tudo um mal-entendido. Não podia ter escutado bem: – Está horrível! – disseram os miúdos. – Como, está horrível? – perguntei. Tinha investido muito tempo a fazer aquele jantar, eu que nem gosto de cozinhar. – Comam e deixem-se de histórias. – disse peremptoriamente. Com um ar mal-disposto, os meus sobrinhos e o seu amigo meteram mais uma colher de sopa na boca… Sentei-me à mesa e provei a sopa. Estava mesmo horrível, eles tinham razão. Disse-lhes: – Não precisam de comer a sopa. Vá, vou servir-vos o segundo prato. Sorrisos e caras muito satisfeitas ao afastarem o prato da sopa para o lado, mas o ar de estarem a comer com esforço voltou quando levaram a primeira garfada de carne à boca. Não, não pode ser, pensei. Será que também não está saborosa? Antes de fazer qualquer pergunta, decidi provar e, realmente, estava bastante má. Digo em voz alta: – Meninos, esqueçam, vamos à pizzaria! – Grande alegria e lá fomos todos comer pizza. Alexandre Castro e Silva, Sociedade Portuguesa de Psicanálise Os espetadores vieram correndo, ficaram congelados no lugar e trocaram olhares perplexos… Nem queriam acreditar nos seus olhos, sussurravam entre si e ouvia-se: - Como é possível? -Isto é inacreditável! - Não sei como permitem estas coisas! - É cultura filha! Lá nos “states” é assim! – diz o Sr. Tomás - Cultura? Cultura? Onde já se viu! – responde a esposa – Paguei bilhete para ver pintura moderna e chego aqui e é isto! - Eu acho bonito! É um quadro simples e bonito. - Pois claro que achas bonito, mas como é possível este quadro valer trinta milhões! Tu não percebes nada de arte. - Mas acho bonito, a luz, a cor, a perspetiva.
77
Made with FlippingBook Annual report maker