ARTIGO II
Da sustentabilidade à regeneração
Regeneração como lógica de integração
dos sistemas naturais, sociais, produtivos e institucionais dos quais a operação depende e sobre os quais exerce influência. Para uma indústria estratégica como a de óleo e gás, esta é uma discussão de com- petitividade, licença para operar, segurança energética, produtividade e reputação. E talvez seja especialmente relevante no Brasil, onde a indústria offshore tem peso econômico, tecnológico e geopolítico muito significativo. No offshore brasileiro, a operação aconte- ce no mar, mas seu impacto se materializa em terra. Está nas bases logísticas, nos por- tos, nos fornecedores de equipamentos e serviços, nos estaleiros, nas empresas de engenharia, nas universidades, nos centros de pesquisa, nos municípios que recebem investimentos, nos profissionais formados ao longo de décadas e nas comunidades que convivem, direta ou indiretamente, com a atividade. Por isso, falar de regeneração no setor de óleo e gás significa reconhecer que a indús- tria tem capacidade de estruturar territórios, criar competências, acelerar tecnologia, de- senvolver fornecedores e deixar capacidade instalada para além do ciclo de vida de um ativo. A questão, na prática, é saber se esse poten- cial ocupa um lugar central na estratégia ou se continua disperso em iniciativas paralelas, conduzidas por diferentes áreas, com indica- dores próprios e pouca articulação entre si.
O setor de óleo e gás já trabalha com várias agendas que, de alguma forma, dialogam com regeneração. Há programas de efici- ência operacional, redução de emissões, segurança de processos, gestão ambiental, conteúdo local, relacionamento comunitário, inovação, transformação digital, capacitação de fornecedores, pesquisa aplicada, integri- dade de ativos e descomissionamento. O problema é que, muitas vezes, essas agen- das evoluem em silos. Cada área tende a olhar para o negócio a partir de suas próprias prioridades. O setor de operações se concentra em produtividade e segurança; a área de susten- tabilidade, em emissões, em biodiversidade e condicionantes; a seção de suprimentos, em fornecedores, custos e performance; o campo de tecnologia, em automação, dados e eficiência; o departamento de relações institucionais, na relação com comunidades e governo e na reputação; enquanto pesqui- sa e inovação procuram antecipar os desa- fios e as oportunidades do futuro. Todas essas agendas são relevantes, mas nem sempre estão articuladas em torno de uma mesma pergunta estratégica. A lógica regenerativa propõe justamente essa integração. Em vez de acrescentar uma nova frente à lista de prioridades, ela oferece uma forma diferente de conectar e potencializar o que já existe.
A próxima fronteira para o setor de óleo e gás
POR ALLAN TEIXEIRA E CRISTIANE MOURA
urante décadas, o setor de óleo e gás foi avaliado por sua capacida- de de entregar energia em escala,
O que importa perguntar é se a presença da atividade deixou capacidades duradou- ras no território: fortaleceu a economia lo- cal? Desenvolveu a cadeia de fornecedores? Capacitou pessoas para oportunidades que sobrevivem ao próprio ciclo do projeto? Preparou melhor as comunidades para o fu- turo? Ampliou a capacidade das instituições locais? Tornou o território, em última instân- cia, mais resiliente? No fundo, a pergunta desloca o critério de sucesso. Em vez de olhar apenas para o desempenho da operação, olha-se também para o valor que ela deixa ao redor de si. É nesse contexto que o conceito de rege- neração começa a ganhar relevância para o setor de óleo e gás. Mais do que substituir a sustentabilidade ou acrescentar uma nova camada ao discurso ESG, trata-se de uma ambição mais exigente, que busca superar a lógica da simples redução dos impactos negativos e avançar para o fortalecimento
sustentar cadeias produtivas estratégicas e movimentar economias inteiras. Mais recen- temente, essa régua ficou mais sofisticada. Eficiência operacional, segurança de pro- cessos, redução de emissões, transformação digital, metas ESG e transição energética passaram a fazer parte da forma como inves- tidores, reguladores, clientes, comunidades e a sociedade avaliam a indústria. Mas há uma pergunta que começa a ganhar cada vez mais importância, especialmente em setores de ativos intensivos e de longa duração: que legado uma operação deixa para o território onde atua? A questão, portanto, vai muito além da pro- dução e dos indicadores tradicionais de con- formidade, como o atendimento às exigên- cias ambientais, o pagamento de royalties ou o cumprimento de condicionantes.
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REVISTA DIGITAL OIL&GAS BRASIL
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