COLUNISTA
Roberto Silva Roberto Silva é engenheiro, foi Superintendente de Portos e Superintendente da Indústria Naval em Secretaria de Estado no Rio de Janeiro, foi gerente geral (CEO) de consórcio responsável pelo contrato de eng., construção e montagem de 7 FPSOs.
Talvez tenhamos passado tempo demais discutindo qual deve ser o percentual de conteúdo local e tempo de menos discu- tindo como transformar conteúdo local em uma verdadeira política de desenvolvimen- to industrial. Não se trata de produzir tudo no Brasil, a qualquer preço. Tampouco de proteger indefinidamente empresas ineficientes da competição internacional. Trata-se de iden- tificar segmentos nos quais a dimensão do mercado brasileiro permita construir escala, tecnologia e produtividade suficientes para que, depois de um período de desenvol- vimento, nossas empresas sejam capazes de competir não apenas no Brasil, mas no mercado internacional.
urante o período em que fui Supe- rintendente da Indústria Naval do Estado do Rio de Janeiro, promovi
alguns workshops reunindo empresas-ânco- ra e potenciais fornecedores para seus pro- jetos. A ideia era simples: se conhecêssemos antecipadamente o que seria demandado, poderíamos identificar o que já éramos capazes de fornecer, o que precisava ser desenvolvido e quais empresas poderiam ser atraídas para produzir no Brasil. Passados mais de vinte anos, assistindo recentemente a uma apresentação de Kari- ne Fragoso, da Firjan, sobre conteúdo local, voltei a uma questão que me acompanha desde aquela época. O Brasil possui um dos maiores mercados offshore do mundo, domina tecnologias sofisticadas de exploração e produção em águas profundas e ultraprofundas e mo- vimentará bilhões de dólares em novos sistemas de produção nos próximos anos. Por que, então, ainda importamos tantos equipamentos de maior conteúdo tecnoló- gico e valor agregado?
Conteúdo local: o problema do ovo e da galinha
E, nesse processo, deveríamos prestar atenção especial aos equipamentos engenheirados.
Fabricar localmente motores navais, hélices, linhas de eixo, bombas, sistemas elétricos, automação e outros equipamentos de maior conteúdo tecnológico produz efeitos econômicos diferentes daqueles obtidos apenas com atividades de menor complexi- dade. São produtos que exigem engenharia, mão de obra qualificada, desenvolvimen- to tecnológico, assistência técnica e uma extensa cadeia de fornecedores. Conteúdo local, portanto, não deveria ser medido somente pela quantidade de reais gastos no país. Deveríamos também per- guntar: que capacidade industrial ficará no Brasil depois que o projeto terminar?
A resposta frequentemente é: porque o produto nacional é mais caro.
Mas imediatamente surge a outra pergunta: como o produto nacional se tornará compe- titivo se não houver escala suficiente para justificar investimento, desenvolver fornece- dores, diluir custos fixos e percorrer a curva de aprendizado?
É o velho problema do ovo e da galinha.
Foto: Divulgação
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REVISTA DIGITAL OIL&GAS BRASIL
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