artigo I
Gás Natural no Brasil em 2025: entre avanços produtivos e impasses estruturais
por Leonardo Mosimann Estrella
O Brasil consolidou um novo patamar de produção, fortemente ancorado no pré-sal. Manteve-se a trajetória ascendente: em 2024, a média foi de 153,1 MMm³/d, enquanto, em 2025, entre janeiro e outubro, alcançou 177 MMm³/d, o que corresponde a 15,6% de aumento. Esse crescimento se traduz, de forma proporcional, na maior disponibilidade de gás nacional ao mercado frente à queda de importação via Gasbol. Mesmo que parcela expressiva da produção (mais de 50%) foi utilizada em reinjeção visando assegurar o crescimento da produção de petróleo e descarbonização das operações. Na distribuição, evidencia-se elevada concentração do setor em número restrito de grupos privados. Destacam-se Mitsui, Compass e Energisa que, por meio das holdings Commit e Norgás, controlam a maior parte das concessionárias estaduais, concentrando parcela majoritária em volume de gás distribuído e na base de consumidores. Em conjunto, esses grupos respondem por 68% do capital social das distribuidoras. A Naturgy, também de controle privado, com operações no RJ e no sul de SP, detém 17% do capital total do setor. Dessa forma, a participação privada alcança 85% do capital que comanda a distribuição de gás no Brasil. A estratégia predominante desse modelo manteve-se orientada pela expansão do mercado residencial, segmento que apresenta crescimento contínuo de clientes e maior garantia de receita, mas que, ao mesmo tempo, eleva o custo médio do sistema ao exigir investimentos em rede para baixos volumes unitários dentro de cidades. Nesse caso, o setor produtivo industrial arca com parte significativa dos custos de expansão da rede voltado para segmentos domésticos.
Tarifas em alta Como resultado, as tarifas industriais permaneceram em patamares elevados. Em grandes concessionárias privadas, como a Comgás (SP), os preços finais ao consumidor industrial acumularam altas superiores a 80% desde 2020, com reajustes anuais que, em diversos ciclos tarifários, superaram 6% ao ano, mesmo em um contexto de inflação controlada e baixa competitividade do insumo. Em termos internacionais, o gás natural no Brasil figura entre as doze maiores tarifas industriais globais, com preços mais de duas vezes superiores aos observados em países produtores como Argentina e México. Esse patamar tarifário reduz significativamente a competitividade do gás como insumo produtivo, limita o uso industrial e compromete seu papel como vetor de reindustrialização, diversificação produtiva e desenvolvimento regional. Entre janeiro e setembro de 2025, a demanda de gás natural no país recuou, com queda de 4% no consumo industrial e retração superior a 20% no uso térmico em relação ao mesmo período de 2024. Ao longo do ano, intensificaram-se ainda conflitos entre transportadoras e distribuidoras, materializados em disputas regulatórias e judiciais. Essas tensões expressam a perda de coordenação e o esvaziamento do papel integrador historicamente exercido pela Petrobras. A classificação dos gasodutos, a definição de tarifas de transporte e a alocação de riscos, hoje impostos ao mercado de consumo, transformaram-se em conflitos, com impactos diretos sobre os custos finais do gás e sobre a forma de investimento em novas redes.
Foto: Divulgação
N o ano de 2025, a produção de gás natural no Brasil atingiu novos patamares, a oferta potencial cresceu dois dígitos e o tema foi intensificado no debate econômico e regulatório, ao mesmo tempo em que persistiram gargalos relacionados à infraestrutura, desafios na governança da cadeia e na formação de preços. O setor passou a conviver com movimentos simultâneos de expansão produtiva, intensificação de disputas entre agentes privados, reposicionamento da Petrobras e redefinição do papel estatal, conformando um quadro que explica tanto os avanços recentes quanto os limites persistentes historicamente na organização do mercado de gás no país.
Revista digital Oil & Gas Brasil
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